Afinal, uma direção

08/01/2016 - O Tempo - MG - Por Mariana Nicolletti e Bruno T. Hisamoto*
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Desde o mês passado, o mundo possui uma nova referência legal na luta contra o aquecimento global e as mudanças climáticas. O Acordo de Paris, aprovado durante a 21ª Conferência do Clima da ONU (COP 21), é um passo importante para que o mundo possa se reorganizar rumo a uma economia carbonicamente neutra, fundamentada em fontes renováveis de energia e em tecnologias, produtos e serviços com baixa intensidade em gases de efeito estufa (GEE). Com vistas a limitar o aquecimento da temperatura média do planeta entre 1,5 e 2 graus Celsius neste século em relação aos níveis pré-Revolução Industrial, o Acordo parte de compromissos nacionais de redução das emissões dos países e estabelece diretrizes para as frentes mais relevantes de atuação, como financiamento e transparência, a serem seguidas a partir de 2020. 

No entanto, esse limite implica um “orçamento de carbono” - a quantidade total de GEE que poderá ser emitida até o final do século. Quanto mais adiarmos a redução significativa das emissões, mais brusca e custosa ela será no futuro. Por isso, é fundamental que os países viabilizem desde agora a transição de suas economias para o baixo carbono. E é vital que eles aumentem suas ambições no corte de emissões – os compromissos firmados até o momento limitam o aquecimento entre 2,7 e 3 graus, bem acima da meta.

O Acordo sozinho não mudará as coisas: ele aponta uma direção para nossas ações na luta contra as mudanças do clima nas próximas décadas. Para que ele seja bem-sucedido, é crucial que os governos traduzam-no em políticas públicas nacionais e subnacionais e engajem todos os setores, desde a sociedade civil até os atores econômicos. 

Nesse sentido, manifestações e marcos importantes foram vistos em Paris. Diversas multinacionais prometeram investimentos bilionários em pesquisa e desenvolvimento tecnológico e apresentaram metas ambiciosas para redução de emissões ou mesmo a sua neutralização (compensação de emissões por esforços de mitigação). Mais de 500 grandes investidores institucionais, que juntos movimentam mais de US$ 3 trilhões em ativos, anunciaram metas para redução de investimento em projetos baseados em combustíveis fósseis (desinvestimento).

Em poucas palavras, a COP21 e o Acordo de Paris inauguram um novo modelo de governança internacional, descentralizando o processo político e empoderando os agentes nacionais. O sucesso desse esforço depende, agora, de que maneira ele desencadeará processo nacionais similares, capazes de mobilizar diferentes atores e conjugar seus interesses e contribuições em torno de um objetivo comum.

* Mariana Nicolletti é gestora da Plataforma Empresas pelo Clima (EPC), do Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV-EAESP (GVces). Bruno T. Hisamoto é pesquisador do GVces.