Bota na Mesa - Encontro com especialistas (fevereiro/16)

O encontro do Bota na Mesa reuniu organizações da sociedade civil, poder público, representantes do varejo, de pequenos produtores rurais, centros de distribuição e instituições de pesquisa, entre outros. Esse encontro permitiu construir um mosaico amplo sobre o contexto da produção agrícola familiar e seus desafios para comercialização 03/02/2016
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Sob o tema “A agricultura familiar no entorno de São Paulo: distribuição e comercialização de alimentos”, o Encontro com Especialistas teve como proposta apresentar o projeto Bota na Mesa a uma rede conhecedores no tema, colher contribuições e ampliar os debates. Reuniu representantes de organizações de pequenos produtores rurais, do varejo, de organizações da sociedade civil, do poder público, de centros de distribuição e de instituições de pesquisa, entre outros. 

“Não vamos reinventar a roda. Tem muita produção já feita. É preciso valorizar e aproveitar o que já tem à disposição”. A fala de Paulo Branco reforçou o posicionamento do GVces no projeto Bota na Mesa de apoiar a integração e articulação de diferentes atores e conhecimentos.

“A nossa ideia é levar o resultado do trabalho direto aos produtores para contribuir com o diálogo dessa rede que já se articula há tanto tempo”, explicou Maurício Jerozolimski, gestor do projeto Bota na Mesa e pesquisador do GVces. “E pensar conjuntamente o mapa que vem sendo traçado e novas oportunidades de atuação conjunta entre a rede e a FGV”, sinalizou sobre perspectivas do projeto.

Durante o encontro, os participantes compartilharam algumas expectativas em relação ao conhecimento que o GVces pode agregar às organizações da agricultura familiar, como a interface com mudanças climáticas, as questões de cadeia de valor, a discussão econômica, financeira e de gestão para sustentabilidade.

Condições de atuação

As condições de atuação dos pequenos produtores foram um tema bastante explorado pelos participantes, desde a relação com o mercado até desafios de qualidade de vida e perspectivas futuras para o produtor. São exemplos as condições socioambientais de onde habitam e trabalham os produtores; a infraestrutura deficiente de armazenagem e transporte e a qualidade da relação entre produtores e os demais elos da cadeia de valor; a ineficiência do apoio público e privado, notadamente no contexto do agricultor periurbano. 

Os interesses e perspectivas das novas gerações também foram um tema recorrente nas discussões. Ondalva Serrano, conselheira do Instituto Auá de Empreendedorismo Socioambiental, chamou atenção para a questão dos jovens que não querem seguir o modelo de trabalho de seus pais devido às condições de vida difíceis, mas, ao mesmo tempo, não gostariam de deixar o campo ou não têm estrutura para viver na cidade. “Temos que passar a investir no ser humano para descobrir seu potencial, sua vocação”.

Os participantes também levantaram questões relacionadas à logística, como a necessidade de mais centros de distribuição para fazer com que o alimento faça um trajeto mais eficiente para chegar ao consumidor final, garantindo frescor e eliminando viagens desnecessárias. Um conceito importante neste sentido é o de “inteligência territorial” - a dinâmica que permite a menor distância entre as partes (produtor e consumidor final, principalmente).

Segurança e soberania alimentar

Muito se fala em segurança alimentar, uma expressão que remete à qualidade dos alimentos e a riscos que eles podem impor à saúde. Alguns especialistas no evento, no entanto, destacaram a relevância de um outro termo: a soberania alimentar. “Esse conceito tem aparecido muito no campesinato da América Latina e significa saber como e por quem é produzido um alimento, permitindo que a escolha do consumidor valorize essa dinâmica”, explicou Ariel Molina, da Comunidade em Suporte à Agricultura (CSA Brasil). 

Para ele, o conceito está na base da discussão sobre economia justa, que envolve outros elementos levantados na discussão, como os custos reais para o pequeno produtor e a distribuição dos ganhos ao longo da cadeia. Como o pequeno produtor muitas vezes não possui poder de negociação, o preço do alimento no mercado não é estabelecido em função dos custos para produzi-lo e as condições em que foi cultivado, e o produtor acaba tendo prejuízo com a venda. 

Consumo

Outro assunto bastante recorrente na conversa refere-se aos hábitos do consumidor, que influenciam na sustentabilidade da cadeia. “Por exemplo, querer comer de tudo o ano inteiro, implica modos de produção mais impactantes, para contornar especificidades de cada época”, alertou Edgard de Moura, integrante do Conselho Nacional de Segurança Alimentar. Para ele, aceitar a sazonalidade é respeitar os limites ambientais do planeta.

Quem também falou do comportamento do consumidor foi Roberto Matsuda, fundador da recém-criada Fruta Imperfeita, empresa que comercializa frutas e verduras fora dos padrões estéticos mais desejados pelo mercado: “Quem inventou que a fruta tem de ter essa aparência de perfeição? Talvez mais do que focar no produtor, o desafio seja focar nos hábitos do consumidor”.

Ainda que alguns comportamentos continuem se perpetuando muitas vezes de modo automático, é fato constatado pelos participantes do evento que existe um grupo crescente de consumidores com demandas novas, buscando alimentação de qualidade para suas famílias. “O desafio é atender a todos os perfis de consumidores”, afirmou Diógenes Kassaoka, diretor geral do Instituto de Cooperativismo e Associativismo da ‎Secretaria de Estado de Agricultura e Abastecimento de São Paulo: “O produtor só vai conseguir atender ao mercado se estiver organizado”.

Os debates propiciaram olhar para a questão da inclusão dos agricultores familiares sob diferentes prismas. Como encaminhamento, foi sugerido pelos presentes um canal aberto de interlocução entre a rede de organizações atuantes e o Projeto Bota na Mesa. Além disso, foi apontada a necessidade de trabalhar a ótica dos consumidores, que norteiam as regras de atuação de redes varejistas. Por estarem distantes dos desafios configurados no campo, impõem suas necessidades de padrão, regularidade e diversidade, muitas vezes sem enxergar ou entender suas consequências O ônus de uma lógica única de atuação recai em grande parte sobre os pequenos produtores, encurralados nas negociações devido ao baixo poder de barganha e a deficiências na capacidade de organização e planejamento.