Bota na Mesa - Encontro Integrador I (abril/16)

Em abril, foi a vez das organizações participantes do projeto se conhecerem no Encontro Integrador I, realizado em São Paulo, no CEAGESP. Os debates sobre regularidade, padrão, diversidade e negociação na comercialização de FLV foram conduzidos com a participação de representantes de varejistas, atacadistas, de canais alternativos de comercialização e de profissionais com experiência nos programas de compras governamentais 27/04/2016
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O primeiro Encontro Integrador reuniu no dia 27 de abril de 2016, no CEAGESP, representantes das cooperativas de produtores agrícolas que integram o Projeto Bota na Mesa, especialistas em comercialização de FVL e outros parceiros do projeto.  Os objetivos do encontro eram disponibilizar informações qualificadas sobre a atuação de canais de comercialização, ampliar o debate sobre os aspectos relevantes no relacionamento comercial entre agricultores familiares e diferentes canais de comercialização e fomentar o intercâmbio e a troca de experiências entre os envolvidos. 

As conversas evidenciaram a importância de que os produtores conheçam os atributos demandados e valorizados por cada canal e perfil de consumidor por ele atendido. Mais do que isso, foi ressaltada a importância de que os produtores conheçam os critérios que definem os padrões para cada produto e saibam avaliar e classificar sua produção adequadamente.

O amplo debate em torno do tema reforçou o entendimento de que há mercado, diversos nichos e espaços, para os diferentes padrões de produtos e perfis de produção. Se há um varejo com foco em produtos premium que seguem padrões mais restritos de tamanho e estética, há também outros canais (distribuidores, comerciantes e consumidores) que buscam outros padrões ou ainda mais dispostos a lidar com certa variabilidade no padrão dos produtos entregues. Ressaltou-se também o fato de estar crescendo atualmente um grupo de consumidores mais sensíveis a causas como segurança alimentar e conservação ambiental, que, de alguma forma, passam a interagir também com as dificuldades e a dinâmica da produção no meio rural. Em todos esses casos, porém, a classificação foi indicada como atividade importante para que o produtor consiga avaliar os preços praticados no mercado por produtos equivalentes aos seus e ter mais referências para a negociação e venda de sua produção.

Também foi debatido que o planejamento da produção e a organização entre pequenos agricultores familiares é um atributo essencial para o relacionamento com os canais de comercialização, que requerem fornecimento em altos volumes. Segundo Anita Dias, do CEAGESP, há mecanismos disponíveis para que os pequenos agricultores aumentem sua capacidade de negociação, que envolve desde o cuidado com o alimento a partir da colheita, separando-os de acordo com o padrão, o tipo e o tamanho, até a emissão de notas fiscais que contenham características mais específicas de cada entrega.  

Um fator transversal aos diálogos estabelecidos é o potencial que canais de comercialização têm para promover ações voltadas à conscientização dos consumidores. De fato, existem impactos sociais e ambientais claros oriundos do hábito de consumo de pessoas que, aglomeradas em grandes centros urbanos, estão distantes das condições de quem vive no campo. Por isso, os elos dessa cadeia que possuem contato direto com os consumidores podem realizar ações para conectar as pontas. “O caminho é mais difícil, mais lento, mas me parece muito mais vantajoso, e realmente bom para todos”, diz Fábio Mendes, do Instituto Chão, sobre a importância de questionar a lógica vigente e incentivar os consumidores a refletir sobre seus hábitos e práticas. “Precisamos de vocês para explicar ao cliente que há diferença de produtos, porque a natureza é assim e a produção é muitas vezes artesanal”, complementa Terezinha, da APO São Mateus, quando o assunto é o modelo de fornecimento constante e estável. 

Os programas de compras públicas são como verdadeiros “atalhos” que funcionam como motores para o fortalecimento da agricultura familiar, destaca Altivo Cunha, consultor da FAO. “Antes dos programas da merenda escolar os filhos de agricultores não consumiam na escola o que seus pais produziam”, diz Altivo a respeito da acessibilidade do consumo em escala local proporcionado pelos programas. Há, contudo, lacunas na implementação desses programas, que não diferenciam ou segmentam as cooperativas fornecedoras e pouco incentiva a melhoria da qualidade dos produtos e dos processos de planejamento e gestão.

Além disso, questões relacionadas à logística e distribuição da produção, dificuldade em contratar mão de obra qualificada para o trabalho no campo, a importância da embalagem para aumentar a durabilidade dos produtos e a transparência nos processos de negociação e compra, deixando claro quanto cada uma das partes ganha, foram aspectos mencionados que precisam ser considerados na definição de estratégias para comercialização de FLV e ampliação do acesso a mercado.  

Do primeiro Encontro Integrador entendeu-se que são muitas as possibilidades postas. Há vazios a serem explorados e é preciso investir no exercício de aproximar as pontas e estabelecer um debate franco e qualificado - que dialoga diretamente com os objetivos do projeto Bota na Mesa. 

Os resultados do dia apontaram para a questão da comercialização de FLV sob diferentes prismas, que vão desde mecanismos processuais, frutos de um sistema que precisa abastecer grandes centros urbanos e atender às necessidades de quem consome, até o debate acerca da função social dos alimentos, que carregam atributos e valores importantes para que possamos atingir realidades diferentes das que estão postas hoje.