Bota na Mesa | Pilotos

Empenhados em implementar as ações previstas no Plano de Ação, organizações participantes do Bota na Mesa realizam reuniões com os representantes dos novos mercados que desejam acessar. São os pilotos: momento previsto para aproximar os elos da cadeia e alinhar expectativas para uma futura proposta de comercialização. 20/12/2016
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Aproximar os elos da cadeia de alimentos em grandes centros urbanos e promover o diálogo. Esta é a missão sobre a qual se debruça o projeto Bota na Mesa. Mas o que de fato isso significa? Quais são as ações concretas que podem ser realizadas nesse sentido? 

Foi a partir dessas inquietações que o Bota na Mesa e as organizações participantes realizaram os pilotos.

Nessa etapa, o objetivo é estabelecer um primeiro contato com o mercado que se deseja acessar. A partir das ações pactuadas na terceira oficina de formação, e tendo em vista o canal de comercialização escolhido por cada organização, o GVces se propõe a articular reuniões e encontros entre os produtores e os representantes dos mercados, tais como prefeituras, varejistas e atacadistas. 

Veja abaixo como foram as primeiras experiência "piloto" de algumas das organizações:

Cooperativa Sul Brasil São Miguel Arcanjo visita atacadista Benafrutti

Em dezembro de 2016, o GVces acompanhou a cooperativa Sul Brasil São Miguel Arcanjo, localizada na cidade que dá nome à organização, em uma visita à Benafrutti, empresa atacadista especializada em frutas e legumes de padrão premium, parceira da rede de supermercados St. Marche. 

Na ocasião, estavam presentes Francisco e Roberto, produtores e integrantes da gestão da cooperativa, Maria Luiza, gerente de compras da rede varejista St. Marche, e Luci e Luís, da Benafrutti, além da equipe do Bota na Mesa. 

A cooperativa tem forte influência da cultura japonesa, pois foi fundada em 1979 por imigrantes. Hoje são aproximadamente 40 cooperados, produtores de frutas e legumes, com destaque aos cultivos de uva, nêspera, pêssego e decopom. Em relação a infraestrutura, a cooperativa possui um packing house na qual são embalados os produtos e há uma especial vocação para os mercados que valorizam produtos premium. 

Ao longo do trabalho desenvolvido em parceria com o Bota na Mesa, o interesse em acessar redes varejistas é compartilhado pelos membros envolvidos no projeto, desde que a qualidade de seus produtos seja reconhecida. Além de mercados regionais, próximos a Sorocaba, a cooperativa se mostrou interessada em conhecer a infraestrutura e a da Benafrutti.

Principais resultados

No piloto, ficou claro para os envolvidos que o grande desafio do setor está em estabelecer relações de confiança e transparência. Entraves contratuais materializam pontos sensíveis na relação entre varejistas e pequenos produtores, especialmente no que tange a preços, prazos e descontos financeiros.

Da aproximação realizada, houve abertura de ambas as partes para a possibilidade de comercialização e de construção de uma parceria, que se inicie em pequenos passos, com testes de entregas e volumes reduzidos. 

“Certamente nós já vendemos para vocês de alguma forma, mas não diretamente”. Essa fala, compartilhada por Roberto, da cooperativa, nos mostra a riqueza de se estabelecer o diálogo entre as partes. 

A aproximação estabelecida foi um passo importante e de muito aprendizado. Encurtar as cadeias de alimentos no entorno de grandes centros urbanos a partir da construção de relacionamentos transparentes pode ser uma relevante contribuição para a valorização da agricultura familiar.

Agricultores familiares da COOPAVAT participam do Dia de Cidade no CEAGESP

O abastecimento de frutas, legumes e verduras sempre foi um problema estratégico em grandes centros urbanos. Organizar os fluxos de uma ampla diversidade de produtos que são valorizados pelo seu frescor impõe uma série de desafios. 

A Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (CEAGESP) se destaca como o maior entreposto comercial da América Latina. Em uma área de 70 hectares dentro da capital paulista, são comercializados diariamente 12 mil toneladas de frutas, legumes e verduras. Números colossais, que retratam a magnitude do debate de abastecimento de alimentos e grandes centros urbanos. 

Para que os alimentos cheguem até o entreposto, uma extensa rede de intermediários realiza o transporte desde as propriedades, localizadas em diversos estados do Brasil e até mesmo em outros países, até a capital paulista.

Com uma promessa de realizar o frete e efetuar a venda da produção para atacadistas do CEAGESP, os chamados "atravessadores" passam semanalmente nas propriedades e carregam seus caminhões com os produtos frescos, colhidos na hora. Sem a certeza do que efetivamente acontece após a retirada da produção, realizar a gestão financeira e balancear entradas e saídas tornam-se atividades desafiadoras para os produtores.

Essa realidade é comum à maioria das hortaliças produzidas na região de Jundiapeba, em Mogi das Cruzes, nas quais os cooperados da COOPAVAT (Cooperativa dos Agricultores do Cinturão Verde do Alto Tietê), participante do Bota na Mesa, também estão inseridos. 

O plano de ação da cooperativa tem em vista uma aproximação aos atacadistas do CEAGESP, de modo a tornar as vendas mais seguras e empoderar os produtores para negociar preços mais atrativos. Buscando indicar os passos necessários para uma aproximação maior das formas de comercialização disponíveis no CEAGESP, o Bota na Mesa marcou uma reunião entre representantes da cooperativa e Centro de Qualidade em Horticultura do entreposto.

Na ocasião, os agricultores tiveram a oportunidade de conversar sobre critérios de qualidade exigidos pelos mercados, padrões para precificação e formas de negociação possíveis entre agricultores e permissionários ali instalados, que podem ser desde a venda indireta, por meio de intermediários, até a gestão de um espaço próprio, que demanda tempo e outros tipos de qualificação, mais ligadas à gestão. 

Dando uma volta, após a conversa, pela área onde são expostas as hortaliças, os agricultores puderam ver o ponto final da cadeia. Alguns viram produtos seus, que haviam sido entregues mais cedo para intermediários que ali estavam vendendo a um preço mais alto. Foi uma amostra de como funciona uma cadeia e das possibilidades para encurtá-la. 

Do piloto realizado entre a COOPAVAT e o CEAGESP, a lição é a de que nem sempre o plano inicial define a jornada a ser seguida. Entretanto, é a partir dele que surgem os aprendizados que possibilitam corrigir os rumos e tomar decisões de comercialização com maior autonomia e segurança. Para isso, é fundamental que as organizações de pequenos produtores conheçam os preços praticados na ponta. 

As experiências já vividas nos pilotos de comercialização reafirmam a necessidade de inovar no relacionamento, aproximar os elos da cadeia à realidade do pequeno produtor e ampliar o debate, articular mais atores envolvidos na cadeia de alimentos de grandes centros urbanos.