Desafio do FIS 14

10/02/2017
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“(...) Os alimentos somente nutrem o sangue e os músculos quando se digerem; os alimentos do espírito também precisam ser digeridos.” (Sêneca)

O desafio do Projeto Referência do FIS 14 é:

Construir um mosaico digital e interativo que revele a situação dos desertos alimentares na cidade de São Paulo e entorno, provocando a reflexão sobre sua existência e como afetam indivíduos, relações, políticas públicas e negócios

Este Projeto Referência envolve:

  • Mosaico é uma expressão artística milenar, na qual o artista organiza pequenas peças coloridas e as cola sobre uma superfície, formando imagens. O termo mosaico é originário do grego mousaikon, que significa “obra das musas”. Um mosaico interativo pressupõe não só que suas partes interajam entre si, mas que as pessoas possam se relacionar com ele de alguma forma (por meio de depoimentos, imagens, frases... Que as musas nos inspirem nessas escolhas!);
  • Entender o fenômeno em sua complexidade, em seus vários níveis de realidade: mapear questões históricas, dados, gestos cotidianos que construíram e que mantêm a cultura e as práticas da boa e da má alimentação, assim como as dificuldades no acesso a uma boa alimentação, especialmente pela população mais pobre;
  • Mapear políticas e práticas públicas e empresariais que buscam soluções efetivas para a diminuição dos desertos alimentares;
  • Pesquisar sobre desertos alimentares de forma abrangente: como ele é tratado em outros países? Suas relações com os ODS? A sua relação com esse tema?

Este Projeto também demanda:

  • Deve ser interativo, portanto, captar corações e mentes de quem com ele interage. Deve promover interações pessoa-mosaico e pessoas-pessoas, encorajando a colaboração e a empatia;
  • Deve ser digital, o que demanda parceria com programadores, pesquisa de interfaces, apps, programas, etc. Queremos atingir o maior número de pessoas possível!
  • Deve trazer o conceito de desertos alimentares em sua complexidade, o contexto em que está inserido em São Paulo e no mundo. Vocês devem entregar: contexto, necessidades, perguntas mobilizadoras, missão e princípios do mosaico, experiência estética (lembremos que se trata de uma obra das musas), referências e inspirações;
  • Deve trabalhar com dados e cenários reais, ao mesmo tempo em que promove um ambiente para descobertas pessoais, reflexões e mobilização para ação. Assim, cada peça do mosaico deve conter (no mínimo): seu conceito, infográficos, iniciativas públicas e/ou empresarias inspiradoras, depoimentos e questões autoformativas; 
  • Organizar o evento de lançamento do mosaico com a banca avaliadora e parceiros do FIS e público em geral (Data do evento: 30/05/17).
  • Investigar, criar, prototipar, brincar, testar!
CONTEXTO

O Brasil é o terceiro maior produtor de frutas do mundo, com um volume de cerca de 40mi/ton/ano. Mas esse número esconde um paradoxo: apesar de nos últimos 10 anos ter havido a ascensão de milhões de pessoas para um padrão mais elevado de consumo, menos de 25% dos brasileiros ingerem a quantidade diária de frutas e hortaliças recomendada pela OMS (400g). O que houve foi uma expansão no consumo de comida industrializada. Parte desse consumo é de pessoas que não tinham qualquer segurança alimentar e, na prática, não têm outra opção. Outra é de pessoas que têm a opção de comer melhor, mas trocam saúde por conveniência, afinal produtos industrializados são instantâneos e duram meses, já os frescos precisam de logística e preparo. Isso representa um perigo silencioso à saúde: segundo a OMS, 1,7 milhão de pessoas morre por ano de males associados a uma dieta pobre em frutas e hortaliças (diabetes, doenças cardiovasculares, obesidade e até alguns tipos de câncer). Mas além da comodidade, existem outros fatores que contribuem para esse cenário, como a questão do acesso aos alimentos saudáveis e in natura, ou desertos alimentares. 

Uma noção usual de quando falamos em deserto alimentar (food desert) é que ele ocorre em regiões ou até mesmo cidades inteiras onde não existe acesso a alimentos in natura. Nesses lugares é praticamente impossível encontrar uma refeição com vegetais, frutas, alimentos que não tenham sido preparados industrialmente. As pessoas ali costumam perder a capacidade de preparar uma refeição: não sabem cozinhar e nem querem aprender. Perdem sua identidade cultural alimentar. 

Esse tipo de deserto alimentar acontece principalmente nas regiões mais pobres. Quanto mais pobre é a pessoa (ou a região em que ela vive) e menor o nível educacional, maior a propensão a comer só produtos industrializados. Porém não só os mais pobres são afetados: há também aqueles que voluntariamente se exilaram em um deserto alimentar pela comodidade. Os impactos são inúmeros: na saúde, nos investimentos na saúde pública,, na perda de cultura alimentar, no espírito...

Essa é uma discussão que faz parte do debate sobre o modelo de desenvolvimento do país. Ascender economicamente sem desenvolver todas as dimensões da vida (que tem como boa medida um padrão alimentar humanizado, inserido em um contexto cultural, social e ambiental) é uma questão para a sustentabilidade. 

O FIS 14 busca contribuir com uma parte do que está posto como desafio para a nossa sociedade.