Desafios em energia são tema do segundo debate do Radar Rio+20 na FGV-SP

Parceria entre GVces, Vitae Civilis, Instituto Socioambiental e Rádio Estadão/ESPN promove segundo encontro temático sobre a Conferência da ONU para o Desenvolvimento Sustentável 23/04/2012
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Bruno Toledo

 
"Quando discutimos energia, não estamos considerando apenas aspectos técnicos, da energia per se: ela é um indicador importante de como estamos utilizando nossos recursos naturais, e sabemos que se estes recursos não forem utilizados de forma inteligente, poderemos ter graves problemas no futuro". A fala de José Goldemberg, ministro do meio ambiente durante a Rio-92, ilustra a importância do setor energético no debate sobre sustentabilidade e sobre mudanças climáticas, e a Rio+20 é uma oportunidade para que temas como este sejam discutidos entre governos, empresas e sociedade civil.
 
O debate promovido pelo Radar Rio+20 no último dia 23 de abril no Salão Nobre da FGV-SP discutiu estas questões, com a participação do ex-ministro Goldemberg e de Sérgio Leitão, coordenador de campanhas do Greenpeace Brasil, e com a mediação de Aron Belinky, do Instituto Vitae Civilis. Este foi o segundo da série de três debates temáticos que o Radar Rio+20 - uma iniciativa do Centro de Estudos em Sustentabilidade (GVces) da FGV/EAESP em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA), o Vitae Civilis e a Rádio Estadão/ESPN - promove antes da realização da próxima Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, no final de junho. O primeiro debate, sobre cidades sustentáveis, foi realizado no dia 29 de março (veja mais aqui).
 
 
O desafio energético no Brasil
 
Neste cenário de mudanças climáticas resultantes das emissões desenfreadas de gases de efeito estufa (GEE) e de esgotamento global das reservas de combustíveis fósseis esperada para as próximas décadas, a energia ganhou um papel muito importante, tanto no esforço de mitigação dos efeitos da mudança do clima quanto na necessidade de combater a desigualdade social e a pobreza e garantir níveis de vida dignos para todas as pessoas, sem comprometer ainda mais os recursos naturais .
 
Segundo José Goldemberg, no século passado o consumo de combustíveis fósseis permitiu a mais de 1/3 da população mundial ter um padrão de vida elevado. Para o ex-ministro, a utilização desta fonte energética nos leva a três problemas importantes. “Primeiro, suas reservas são finitas e estão se esgotando rapidamente; segundo o acesso a estas reservas é desigual; e terceiro, o consumo de combustíveis fósseis é um dos principais responsáveis pela degradação ambiental que vemos atualmente”, argumentou Goldemberg.
 
Este panorama reforça a necessidade de se desenvolver matrizes energéticas alternativas, o que significa investir no desenvolvimento de novas fontes de energia. É exatamente neste ponto que o Brasil está apresentando perspectivas pouco otimistas. "O volume de recursos previstos em investimento energético para a próxima década chega a um trilhão de reais, mas quase 70% estão sendo direcionado para o pré-sal", disse Sérgio Leitão. "Isso significa que estamos colocando quase 2/3 dos recursos futuros para energia numa matriz energética dos anos 1970".
 
O desafio para o Brasil é discutir estas questões sem preconceitos. Para Leitão, "não podemos nos tornar reféns de uma base energética ultrapassada nem de decisões apaixonadas, que sacrificam o país; precisamos discutir estes problemas apaixonantes de forma desapaixonada". Isto também significa considerar outras matrizes energéticas e investir no desenvolvimento tecnológico delas. “Energias novas possuem uma curva de aprendizado, ou seja, na medida em que obtemos mais conhecimento técnico sobre elas, sua produção é barateada", argumentou Goldemberg. “A inovação energética é algo que precisa ser melhor contemplado no planejamento energético do Brasil”, completou o ex-ministro.
 
 
O papel do Brasil na Rio+20
 
A forma como o governo brasileiro vem atuando enquanto anfitrião da Rio+20 também foi discutida pelos debatedores. Segundo José Goldemberg, o foco da conferência está sendo perdido, já que o Itamaraty tem reiterado que a Rio+20 não será apenas uma reunião sobre meio ambiente. A insistência do Brasil em inserir questões econômicas e sociais na agenda política da conferência pode levar ao esvaziamento do encontro. "Este tripé meio ambiente-economia-sociedade é desigual, pois meio ambiente pode existir sem economia e sociedade, mas estas não conseguem existir sem aquela", argumentou Goldemberg. "Ao esvaziar a agenda da Rio+20 das questões ambientais importantes, como mudanças climáticas, pode-se levar também ao esvaziamento político da própria conferência".
 
O comportamento do governo brasileiro nas articulações políticas para a conferência também foi criticado no debate. Para Sérgio Leitão, a crítica recente da Presidente Dilma Rousseff à energia eólica e solar serviu como um anti-convite para a Rio+20. "A falta de visão de médio e longo prazo do Brasil é um problema sério; se não entendermos que o meio ambiente pode ser o nosso passaporte para a modernidade, continuaremos neste dilema entre nossas potencialidades e nossas restrições", completou Leitão.
 
No entanto, ainda há tempo para o governo assumir sua tarefa de articulação política para a Rio+20. “Meses antes da Rio-92, as perspectivas também não eram otimistas, mas o então presidente Fernando Collor assumiu a tarefa, mobilizando seus ministros para trazer os chefes de estado e para fortalecer a agenda política da reunião”, disse José Goldemberg. “O Brasil tem capacidade de liderar este processo, como o fez em 1992, mas lamentavelmente hoje eu vejo o governo não tão entusiasmado”.
 
A provável ausência de importantes chefes de Estado, como o presidente norte-americano Barack Obama ou o primeiro-ministro britânico David Cameron, não significa que a Rio+20 não terá importância política. Isso porque o debate está deixando os espaços diplomáticos da ONU e envolvendo atores que antes participavam pouco das discussões, como a sociedade civil e a iniciativa privada. "Está claro que a Rio+20 não se trata apenas de uma conferência de governos, mas de um conjunto de debates, onde o protagonismo é desempenhado por outros setores mobilizados, que podem fazer a diferença na construção do legado desta reunião", disse Aron Belinky.
 
 
Próximo debate
 
O terceiro debate promovido pelo Radar Rio+20 será no próximo dia 28 de maio, das 10h às 12h, no Salão Nobre da FGV-SP, e discutirá economia verde.