Dia de campo leva participantes do projeto para conhecer pequenas propriedades em Mogi das Cruzes

24/07/2019
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Com o objetivo de aproximar da realidade do campo as discussões que vinham sendo conduzidas no âmbito dos grupos de trabalho em mudança do clima e transição agroecológica, o Bota na Mesa organizou um dia de imersão em uma região próxima a São Paulo para visitas e conversas com produtores.

O grupo, composto por 10 pessoas, dentre representantes de empresas e governos, pesquisadores e agricultores, saiu de São Paulo bem cedo no dia 18 de junho rumo a Mogi das Cruzes, onde foi recepcionado pela equipe da Coordenadoria de Desenvolvimento Rural Sustentável da Secretaria de Agricultura e Abastecimento (CDRS/SAA-SP), que apoiou na organização do dia, em seu escritório na cidade.

Após um café e uma rodada de apresentação em que os participantes também compartilharam expectativas para o dia, o destino seguinte foi a propriedade do Sr. Hélio, que recentemente aderiu ao Protocolo de Transição Agroecológica da SAA-SP e tem recebido apoio da CDRS para mudar suas práticas. Além disso, o agricultor faz parte de um projeto que busca aproximar produtores de uma grande rede hoteleira que tem uma unidade na região, promovendo compras locais e apoiando o desenvolvimento de relações mais justas. 

Sr. Hélio compartilhou com o grupo seus desafios e motivações para promover a transição agroecológica em sua propriedade, com destaque para a dificuldade de conseguir mão-de-obra. Como motivação, Sr. Hélio aponta a redução dos  custos e acesso a canais de comercialização com preços mais atrativos. Ele ainda não tem uma certificação, mas o único insumo que ainda usa é o NPK, quando há necessidade. 

 

A próxima parada foi a Chácara dos Baianos, assentamento em Jundiapeba, nos arredores de Mogi das Cruzes, onde vivem cerca de 300 famílias produtoras de hortaliças, muitas delas participantes do Bota na Mesa desde seu início, em 2015. Essa foi uma região muito impactada pelas fortes chuvas do início do ano e muitas das famílias perderam boa parte de sua produção. Vale ressaltar que esse território é grande responsável por abastecer as prateleiras do estado de São Paulo com frutas, legumes e verduras, o que coloca como urgente a sua adaptação às mudanças do clima, que devem ser responsáveis por cada vez mais eventos extremos como o do início do ano. 

Ali foram visitados dois produtores: o Moacir e o seu Ivo. A ideia inicial era conhecer a realidade de dois tipos de produção, uma convencional e a outra orgânica. O Moacir, que passou pela formação do Bota na Mesa, representaria a primeira prática e, para surpresa da equipe, desde a última vez em que esteve lá em 2017, o agricultor tem reduzido bastante a dependência de agrotóxicos e já começou a aplicar produtos biológicos em sua produção, o que mostra que a tendência para produção agroecológica tem sido de fato crescente. 

Na residência do Seu Ivo, após o grupo ter sido contemplado com um ótimo almoço caseiro, foi possível dar uma volta em sua plantação e se inspirar com o trabalho que ele faz ali. Ele cultiva uma diversidade enorme de hortaliças em pouco espaço (são 0,4 hectares), totalmente livre de pesticidas: ele produz fertilizante a partir da compostagem e só usa elementos naturais para combater eventuais pragas. Boa parte do conhecimento dele é atribuído ao seu contato com povos indígenas.  

Como encerramento do dia, fizemos uma roda de conversa em que os participantes compartilharam suas impressões, como a importância de sair da rotina e estar em um ambiente em que as reflexões são permeadas por outros sons, aromas e sabores. Além disso, ficou muito evidente a necessidade de mais apoio e assistência aos agricultores para que façam a transição agroecológica. Em relação à mudança do clima, a percepção é a de que muito pouco se fala disso em campo, apesar de já haver efeitos negativos: é urgente fazer com que as informações cheguem e novas práticas mais resilientes sejam pensadas

O grande destaque foi a interação entre os agricultores que, ao entrar em contato com outras regiões e práticas produtivas que não as suas, trocaram experiência, conhecimento e cultivaram a empatia, em especial no que diz respeito às diferenças entre aqueles convencionais e os orgânicos. 

As reflexões possibilitadas pela ida a campo vão contribuir significativamente para a construção das diretrizes no âmbito dos grupos de trabalho e esse tipo de experiência vai se firmando cada vez mais como essencial no processo de construção coletiva, como o que o Bota na Mesa vem colocando em prática desde 2018.

Organizações presentes neste encontro: 

Orgânicos do ABC, WWF, CDRS, Fundação Cargill, Rede de Agroecologia do Leste Paulista, IPE – Instituto de Pesquisas Ecológicas, AIPRO, AAZL e COOPROJUR

 

Sobre o Bota na Mesa 

Em 2019, o projeto Bota na Mesa dá continuidade ao processo de construção de diretrizes públicas e empresariais para a inclusão da agricultura familiar. Por meio de discussões junto a um grupo múltiplo e plural de atores, e amparado por pesquisas e publicações no assunto, serão construídas recomendações em dois novos temas: mudança do clima e transição agroecológica. Além disso, o Bota na Mesa irá inaugurar a frente de trabalho de implementação das diretrizes junto a representantes de empresas e governos.