Emissão de títulos verdes no Brasil deve movimentar cerca de 16 bilhões de reais em 2017

10/11/2016 - O Estado de S. Paulo - Amcham Brasil
COMPARTILHE

Economia

 

“Há um potencial de mercado no Brasil de até cinco bilhões de dólares (ou 15,8 bilhões de reais, convertido pelo dólar médio de 3,16 reais do início de novembro) de emissões de títulos verdes (green bonds) em 2017”, estima Justine Leigh-Bell, diretora de desenvolvimento de mercado da Climate Bonds Initiative (CBI).  Bastante disseminados no mercado internacional, os chamados títulos verdes começam a ser usados no Brasil para financiar ativos de impacto ambiental positivo, como o manejo florestal e eficiência energética.  Para a executiva, o Brasil é um dos países com maior abundância de recursos naturais no mundo e há muitos projetos a serem financiados através de green bonds.

 

Os títulos verdes são instrumentos de renda fixa semelhante aos títulos tradicionais de mercado, e podem ser emitidos por empresas de todos os portes que queiram construir ou modernizar ativos de impacto ambiental positivo.  A diferença para os instrumentos convencionais de captação é que o dinheiro vai exclusivamente para projetos com princípios sustentáveis, sendo verificados por avaliação externa.  Após a emissão, a empresa emissora se compromete a divulgar periodicamente a aplicação dos recursos e seus resultados.

 

No Brasil, a BRF e a Suzano Papel e Celulose foram duas das empresas que captaram recursos para projetos de eficiência energética e manejo florestal, com alta procura pelos investidores.  O Santander, que atua nesse mercado, disse que a procura pelas emissões tem atraído o interesse de empresas de todos os portes.

 

Para Annelise Vendramini, coordenadora de Finanças Sustentáveis do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (GVces), o Brasil é uma economia que gira em torno de recursos naturais.  “A agroindústria é quase 25% do PIB e 30% das exportações.  Há uma grande oferta de projetos ligados à sustentabilidade que se beneficiariam de investimentos responsáveis.  Se é green bond, o interesse é pelo menos três vezes maior”, disse.

 

De acordo com a CBI, até julho os green bonds brasileiros somavam quase três bilhões de dólares (aproximadamente nove bilhões de reais).  No mundo, as emissões de títulos verdes chegaram a 70 bilhões de dólares (221 bilhões de reais) em outubro.  A CBI é uma organização internacional que reúne grandes investidores de projetos voltados à economia de baixo carbono.

 

Marina Grossi, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), observa que os títulos verdes são uma opção de financiamento privado para ajudar os países a cumprir a meta de redução de emissões de gases poluentes.  “Os projetos de baixo carbono não serão feitos apenas com recursos públicos”, destaca.  A instituição fará uma apresentação para empresas e bancos sobre o desenvolvimento do mercado de títulos verdes na cúpula global sobre o clima (COP 22) que acontece em novembro, no Marrocos.

 

No Brasil, o CEBDS lançou um Documento guia para emissão de títulos verdes PDF

 

em parceria com a Federac¸a~o Brasileira de Bancos (FEBRABAN) para investidores interessados no uso do instrumento.  Para Mário Sérgio Vasconcelos, diretor de relações institucionais da FEBRABAN, as emissões verdes são as mais adequadas para financiar projetos sustentáveis, pois foram criadas com esta finalidade.  “Elas possibilitam às empresas emissoras diversificar e ampliar a base de investidores, como fundos sustentáveis e aqueles que têm compromissos com investimentos responsáveis.” Outra vantagem é o ganho reputacional para o emissor e o investidor, por demonstrar o comprometimento com a conservação do meio ambiente, acrescenta.

 

Neste ano, a Suzano Papel e Celulose realizou uma emissão verde de 500 milhões de dólares para financiar projetos de restauração florestal, energia renovável e gestão hídrica.  O prazo da operação é de 10 anos, com cupom (pagamento de juros) de 5,75%.  A operação teve uma demanda de quase três vezes o montante captado, de acordo com Guilherme Hirata, gerente executivo de finanças da Suzano Papel e Celulose.  “Considerando as oportunidades que o mercado oferecia, foi uma operação concluída de forma rápida”, destaca Hirata.

 

A garantia de que o montante captado será usado para projetos sustentáveis foi um diferencial, de acordo com o executivo.  “Em uma emissão convencional, parte do recurso poderia ser canalizado para capital de giro, por exemplo.  No green bond, existe o compromisso de usar o dinheiro para um fim específico que será verificado por uma auditoria externa.” Em 2016, a Suzano concorre ao Prêmio ECO com um projeto de inclusão social.

 

Em 2015, a BRF se tornou a primeira empresa brasileira a emitir green bonds.  Os 500 milhões de euros captados foram direcionados a iniciativas de eficiência energética e hídrica, além de projetos de energia renovável e gestão de resíduos.  Os papéis carregam uma taxa de retorno de 2,82%, com vencimento em sete anos.

 

O Santander foi um dos bancos participantes da emissão da Suzano.  De acordo com Linda Murasawa, superintendente de sustentabilidade do Santander, o banco tem sido consultado por empresas de todos os portes interessadas nas emissões.  Para ela, a procura pelos papéis verdes das duas empresas foi grande e o processo de captação foi mais rápido que o de emissões convencionais.  “Isso mostra que as empresas estão sendo reconhecidas pelo mercado por praticar ações sustentáveis.”

 

Em 2015, o Santander venceu o Prêmio ECO pelo projeto de financiamento de autogeração de energia, e concorre ao ECO deste ano com projetos de rating ambiental de crédito e financiamento sustentável do agronegócio.

 

Para Justine, o interesse por green bonds se deve também à redução de riscos.  Títulos verdes são títulos de dívida corporativa, instrumento que vem financiando projetos de infraestrutura há décadas, argumenta.  “Mas, no fim do dia, a discussão é sobre mitigação de riscos climáticos e de governança, que podem afetar o retorno dos projetos.  Ao direcionar recursos para projetos específicos e auditados, a previsibilidade é maior.”

 

10 de Novembro de 2016 | 15h09