Empresários apontam caminhos para a economia de baixo carbono no Brasil

Seminário internacional promovido pelo GVCes resultou em recomendações ao governo e no lançamento de dois estudos. 10/11/2010
COMPARTILHE

Leia aqui: recomendações ao governo
Propostas empresariais de políticas públicas para uma economia de baixo carbono no Brasil
Financiamentos Públicos e Mudança do Clima

 

Para propor caminhos para uma economia de baixo carbono e mostrar como os empresários de outros países trabalham para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, a plataforma Empresas pelo Clima (EPC), do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (GVces), realizou em São Paulo, no dia 9 de novembro, o seminário Desafios Empresariais para a Economia de Baixo Carbono. O evento reuniu líderes empresariais dispostos a trabalhar pela construção conjunta de políticas públicas para que o governo possa regular o setor econômico na perspectiva da economia verde.

Os empresários assinaram o documento Propostas empresariais de políticas públicas para uma economia de baixo carbono no Brasil: Energia, Transportes e Agropecuária. Trata-se de recomendações que serão encaminhadas à equipe da presidente eleita, Dilma Rousseff, e são um desdobramento de estudo homônimo, desenvolvido durante um ano com a coordenação do GVCes e a participação de várias empresas de grande porte no Brasil, integrantes do EPC.

No evento, foi lançado também o estudo Financiamentos Públicos e Mudança do Clima – Análise de Bancos Públicos e Fundos Constitucionais Brasileiros, que mostra a importância do setor financeiro público na disponibilização dos recursos necessários para o financiamento de uma economia de baixo carbono. O estudo avaliou políticas e práticas de bancos e fundos públicos brasileiros quanto à redução do impacto climático de suas operações e analisou o planejamento estratégico das instituições bancárias públicas no âmbito das mudanças climáticas.

Coordenado pelo GVces e pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), com apoio da Embaixada Britânica, o estudo aponta que há recursos disponíveis nos bancos públicos para investimentos em ações que reduzam os gases de efeito estufa. “O que falta é acompanhar os investimentos que já estão sendo feitos com recursos dos bancos públicos. Para isso, as instituições financeiras precisam desenvolver tecnologias para monitorar o gasto do dinheiro”, explicou Gladis Ribeiro, coordenadora do estudo.

Segundo ela, todas as instituições pesquisadas têm uma consciência estratégica da necessidade de desenvolver produtos e soluções que atendam à economia de baixo carbono

Experiências internacionais

O diretor de Desenvolvimento do Cambridge Programme for Sustainability Leadership da Universidade de Cambridge, Martin Roberts, mostrou a experiência da instituição no apoio científico e tecnológico a empresas europeias que buscam o caminho da sustentabilidade e das baixas emissões de carbono.

Segundo ele, há poucos anos, a associação de empresas inglesas (CBI) dizia que a sustentabilidade nos negócios traria desemprego. Hoje, disse, essa ideia já está superada. Tecnologias sustentáveis foram fundamentais para a nova economia britânica. Japão, Coreia, México, Turquia, EUA, Índia, Canadá são países que também se engajaram na mobilização do setor empresarial pelo clima. O Brasil também se destaca nessa rota, uma vez que as empresas ligadas ao Programa Brasileiro GHG Protocol já fazem seus monitoramentos para saber o quanto cada uma delas emite de gases estufa. E as organizações integrantes do EPC debatem caminhos empresariais para uma economia de baixo carbono.

O diretor de projetos da Carbon Trust, do Reino Unido, David Vincent, disse que "conhecer o volume de emissões é o primeiro passo para uma empresa caminhar para a economia de baixo carbono". Em sua opinião, algumas vezes os executivos apontam os problemas financeiros como entraves ao processo, mas é fato que há um retorno positivo. O caso japonês e o espanhol também foram expostos no seminário por representantes de entidades locais.

Yes, nós reduzimos carbono

Empresas brasileiras que já estão implementando políticas voltadas à economia de baixo carbono também apresentaram cases no seminário. O diretor de Desenvolvimento e Implantação de Projetos da Vale, Fernando Augusto Quintella, mostrou o que fez sua empresa se tornar líder mundial entre as mineradoras no ranking de mudanças climáticas do Goldman Sachs. “Esse resultado deve-se ao trabalho que vem sendo realizado pela empresa há anos. A economia de baixo carbono vai dar lucro e quem não fizer vai ter prejuízo. É um processo que não tem retorno”, observou.

Para o superintendente de Sustentabilidade do grupo Camargo Correa, Ciro Fleury, sustentabilidade tem tudo a ver com perpetuação. “O tema do clima surgiu há dois anos por percebermos que não havia nada sobre isso na empresa”, disse. Hoje, políticas corporativas nesse contexto são adotadas nas diversas empresas do grupo.

Marcus Jank, diretor da da União da Indústria da Cana de Açúcar (Unica) - que respondem por 60% da produção de cana-de-açúcar, açúcar e etanol produzidos no Brasil - disse que, o etanol representa uma redução de emissões de 90% em relação às da gasolina, no Brasil. “Fizemos o que nenhum outro setor fez. Somos os primeiros a assumir que não vai haver desmatamento – o setor só vai crescer em cima de áreas já existentes”, finalizou Jank.

Próximos passos

“O setor empresarial está absolutamente conectado no tema e preocupado com o quanto o clima impacta na sua atuação”, disse o coordenador geral do GVces, Mario Monzoni. Essa foi a motivação para que o Centro desenvolvesse os estudos setoriais com as sugestões de políticas públicas para o governo.

Mário Monzoni adiantou que a intenção do GVces é ampliar os estudos para outros setores, de modo a garantir os subsídios necessários para consolidar o Brasil como uma liderança em baixas emissões de carbono no setor econômico entre os países em desenvolvimento.