Empresas iniciam trajetória rumo ao inventário de emissões

Método GHG Protocol é tema de oficina da Plataforma Empresas pelo Clima 05/03/2012
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Oficina sobre GHG Protocol, durante ciclo EPC 2011
Bruno Toledo
 
As corporações e empresas possuem um papel importante para a mitigação das causas da mudança do clima e a redução das emissões globais de gases de efeito estufa (GEE), e o primeiro passo para esta contribuição está na elaboração de seu inventário de emissões. Ao mapeá-las e contabilizá-las, as empresas podem estabelecer metas e estratégias de redução e gestão das emissões, além de abrirem oportunidades de negócios no mercado de carbono, atraírem novos investimentos e alcançarem eficiência econômica, energética ou operacional em suas atividades. Ao contribuir para a mitigação das mudanças climáticas, as empresas também possibilitam ganhos intangíveis, como valorização da marca e transparência corporativa com os públicos de interesse.
 
Neste sentido, a Plataforma Empresas pelo Clima (EPC) promoveu entre os dias 28 de fevereiro e 01 de março a terceira edição de sua oficina de capacitação na metodologia do Programa Brasileiro GHG Protocol para elaboração de inventários de emissões, na Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo. O GHG Protocol, formulado pelo WRI e pelo WBCSD em 1998, é a ferramenta mais utilizada no mundo para gerenciamento e quantificação de emissões de GEE, compatível com a norma ISO 14065 e com as metodologias de quantificação do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, sigla em inglês). No Brasil, o GVces capacita as empresas no uso da ferramenta através do Programa Brasileiro GHG Protocol.
 
A importância do inventário corporativo
 
"As mudanças climáticas representam um novo cenário para as empresas, que pode trazer tanto novas oportunidades quanto novos riscos para suas operações e para sua gestão”, afirma Roberto Strumpf, coordenador de projetos do Programa de Sustentabilidade Global do GVces. "O desafio é tentar descolar desempenho econômico do aumento de emissões de gases de efeito estufa (GEE), no sentido de mitigá-las. Para o Brasil, com a economia aquecida, é fundamental fazer este descolamento: continuar produzindo sem aumentar suas emissões” completa Strumpf.
 
A gestão das emissões de uma empresa é feita a partir do esforço inicial de levantar o perfil de suas emissões de GEE. "O inventário deve servir como um instrumento de estudo e uma ferramenta de gestão para as empresas e para seus stakeholders, e não para indicar quem emite mais", apontou Beatriz Kiss, coordenadora do Programa Brasileiro GHG Protocol. Os participantes receberam informações sobre como construir seus inventários a partir de especificações que resultarão documentos transparentes, completos, úteis e confiáveis para seus executivos e seus públicos de interesse.
 
Emissões de Escopo 3, Registro Público de Emissões e verificação dos inventários
 
A oficina também apresentou aos participantes os novos padrões de mensuração para emissões do Escopo 3, formulados pela WRI em outubro de 2011. Este terceiro escopo reúne as emissões indiretas ocorridas nas operações dos fornecedores (upstream) e consumidores (downstream) de uma empresa. "Com a nova ferramenta, as emissões na cadeia de valor das operações das empresas serão mais bem mensuradas e analisadas", disse Alexandre Gross, pesquisador do programa de Sustentabilidade Global do GVces. A inclusão deste tipo de emissão no inventário é voluntária. As emissões de Escopo 1 (GEE emitidos pela própria empresa) e de Escopo 2 (emissões indiretas provenientes da aquisição de energia elétrica e térmica consumida pela empresa) devem ser obrigatoriamente reportados nos inventários corporativos.
 
O Registro Público de Emissões de GEE também foi apresentado durante a oficina. "O registro é uma plataforma online que procura facilitar o reporte e a transmissão de dados sobre o inventário para o público externo", explicou Beatriz Kiss. Assim, o objetivo do Registro Público é aumentar a transparência na divulgação dos dados, estabelecer benchmarks setoriais e sensibilizar o público para a questão das mudanças climáticas.
 
A importância da verificação dos inventários de emissão também foi ressaltada durante a oficina. "A verificação serve como uma proteção para as empresas, uma forma de garantir a confiabilidade das informações relatadas, assegurando a credibilidade da empresa", completa Kiss. Uma das preocupações do Programa Brasileiro GHG Protocol é incentivar a melhoria contínua no processo de desenvolvimento dos inventários corporativos. Neste sentido, o Programa possui um sistema de qualificação dos inventários, em que eles são classificados como Bronze (inventário parcial), Prata (inventário completo) e Ouro (inventário completo e verificado por uma terceira parte).
 
Casos
 
Durante a oficina, foram apresentados cases de duas empresas membro do Programa. Anderson Gonçalves apresentou o caso da Alcoa, uma das pioneiras do Programa Brasileiro, e que desde 2008 realiza inventários anuais de emissão de GEE. "Da mesma forma que o Programa evoluiu, nosso trabalho com o desenvolvimento do inventário também evoluiu", afirma Gonçalves, que ressaltou a importância da verificação das informações inventariadas como uma forma de aprimorar os dados e o inventário. "O ganho é muito grande quando fazemos a verificação externa. A partir dos problemas identificados, podemos revisar as informações do inventário e torná-lo ainda mais completo", explica Gonçalves. A Alcoa recebeu o Selo Ouro em 2010.
 
Outro caso apresentado foi o da Ecofrotas, que é membro do Programa Brasileiro desde 2010. Amanda Kardosh e Rodrigo Somogyi falaram sobre as iniciativas de mitigação de suas emissões a partir das informações do inventário da empresa e sobre o trabalho da Ecofrotas de conscientizar seus clientes sobre a necessidade de adaptar suas operações e reduzir suas emissões. “A partir da principal operação de nossa empresa, a gestão de frotas, procuramos oferecer soluções no sentido de reduzir o custo e o impacto ambiental da frota de nossos clientes”, apontou Somogyi. Através dos serviços disponibilizados para seus clientes, como um sistema de gestão de combustíveis renováveis e um sistema de logística reversa da peça, a Ecofrotas desenvolve estratégias de mitigação a partir da gestão das emissões ocorridas na cadeia de valor de suas atividades (Escopo 3). O inventário de 2010 da Ecofrotas também recebeu o Selo Ouro do Programa Brasileiro.
 
Próximos passos
 
Os trabalhos da EPC continuam no próximo dia 14 de março, com a realização do segundo grupo de trabalho sobre Escopo 3, em parceria com o Programa Brasileiro GHG Protocol. A próxima oficina da EPC será em 18 de abril, e tratará da articulação e do engajamento empresarial setorial e intersetorial no âmbito das mudanças climáticas, tendo como pano de fundo os eventos da Rio+20 e a COP-18.