Empresas se reúnem para construir uma visão compartilhada em mudanças climáticas para 2020

Oficina foi realizada no contexto das Iniciativas Empresariais em Clima, rede que agrega CT Clima (CEBDS), Plataforma Empresas pelo Clima (GVces), Fórum Clima (Ethos) e Rede Clima (CNI) 17/07/2012
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Bruno Toledo

 
O que esperar dos próximos anos em matéria de mudanças climáticas? O que emergirá dos debates internacionais? Quais medidas os governos tomarão diante dos impactos das alterações do clima? Quais mudanças a sociedade demandará dos governos, da iniciativa privada e do sistema internacional para resolver este problema? E o que as empresas podem esperar deste cenário emergente, e como elas podem se tornar protagonistas da resolução das mudanças climáticas?
 
Um passo primordial para que as empresas possam se situar neste contexto climático é a articulação e o engajamento das organizações. É nesse sentido que a Plataforma Empresas pelo Clima (EPC) desenvolve ações conjuntas com outras plataformas climáticas empresariais do Brasil por meio das Iniciativas Empresariais em Clima (IEC), como uma forma de ampliar ainda mais a rede de articulação das empresas em torno de caminhos que mitiguem os efeitos das mudanças do clima e que impulsionem o Brasil para uma economia de baixo carbono.
 
 
 
 
No último dia 06 de julho, no Salão Nobre da FGV, em São Paulo, a EPC promoveu uma oficina sobre articulação e engajamento, em conjunto com as demais plataformas das IEC: a Câmara Temática de Energia e Mudança do Clima (CT Clima, do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável CEBDS),representado por Fernando Malta, o Fórum Empresarial pelo Clima (Fórum Clima, do Instituto Ethos), representado por Tatiana Trevisan, e a Rede Clima da Indústria Brasileira (da Confederação Nacional da Indústria CNI), representada por José Quadrelli Neto. O foco da oficina foi articular e engajar as organizações que participam das IEC na construção de uma agenda de atuação e de uma visão compartilhada em mudanças climáticas para 2013-2020. Foram mais de 70 representantes de organizações participando da oficina ao longo do dia.
 
A oficina também contou com a presença de Eduardo Assad, pesquisador da Embrapa e membro do conselho diretor do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, e de Ricardo Baitelo, coordenador de campanhas de energia renovável do Greenpeace Brasil, que participaram de uma arena mediada por Guarany Osório, coordenador do Programa de Política e Economia Ambiental do GVces, que discutiu os cenários esperados para o período de 2012 a 2020 no Brasil e no mundo em relação a mudanças climáticas (assista a apresentação de Assad e de Baitelo na página do GVces no YouTube). O coordenador do Centro de Estudos em Sustentabilidade (GVCes) da FGV-EAESP, Mario Monzoni, também contribuiu com a discussão desenvolvida pelos palestrantes.
 
Os assuntos discutidos na arena serviram para alimentar a discussão entre as empresas sobre os principais desafios e oportunidades que podem emergir até 2020. Esta discussão também foi base para orientar as redes no sentido da construção de uma agenda conjunta de debates e de ações, algo que será feito nos próximos meses.
 
Aquecimento global e negociações internacionais
 
Para Eduardo Assad, o panorama climático continua sendo de aquecimento do planeta, mas a velocidade deste processo pode ser ainda maior do que se supunha até agora. "Todos os modelos científicos que temos hoje apontam para o aquecimento, e nosso maior receio é que este aquecimento supere os 2º Celsius antes de 2050, o que seria problemático, pois não podemos apontar claramente quais seriam as consequências de um acréscimo tão repentino na temperatura do planeta". Evidência deste cenário é a maior incidência recente dos chamados "fenômenos extremos", inclusive no Brasil. "Na Amazônia, tivemos apenas nos últimos anos duas secas e duas enchentes, algo inédito em mais de um século", aponta Assad.
 
No entanto, a aceleração nos processos de aquecimento climático não é acompanhada pelas negociações internacionais de instrumentos para adaptar as sociedades e para mitigar os efeitos dessas mudanças no clima. Para Ricardo Baitelo, pouco se espera dos processos políticos num curto prazo. "O que vemos atualmente é uma tendência de postergação das negociações e da implantação de políticas", argumenta o coordenador de campanhas do Greenpeace Brasil. "Tudo está congelado para 2015 e 2017, e ainda assim as perspectivas de que este panorama mude a partir destes prazos não são otimistas". No que tange às chamadas metas voluntárias que diversos países apresentaram a partir da COP-15 em Copenhague (2009), Baitelo aponta que “elas não são exatamente metas de redução de emissões, mas sim arranjos de eficiência energética, onde o que vemos são compromissos para reduzir a velocidade de aumento futuro das emissões”.
 
As perspectivas no Brasil no cenário climático até 2020
 
Neste contexto de paralisia do processo formal de negociação e de persistência e/ou piora no quadro de aquecimento climático global, o Brasil encontra importantes desafios e oportunidades. De acordo com Assad, um passo importante é o governo brasileiro se ater às consequências da mudança do clima não apenas na Amazônia, mas também abranger outras regiões do país, em especial o Nordeste. “Os efeitos das mudanças climáticas naquela região podem ser devastadores para uma população que já sofre com o flagelo climático, social e econômico”, argumenta Assad. Além disso, o Nordeste oferece uma biodiversidade importante e ainda desconhecida. “Estamos perdendo informações importantes sobre espécies nativas que conseguiram no decorrer do tempo se adaptar a situações climaticamente estressantes”, completa Assad.
 
Outro desafio que traz uma oportunidade muito importante para o país está no desenvolvimento da matriz energética brasileira. "O Brasil possui um potencial em energias sustentáveis, que pode nos oferecer uma vantagem importante no cenário pós-Quioto", aponta Ricardo Baitelo. Por outro lado, os investimentos recentes do governo brasileiro no pré-sal e na expansão da energia hidrelétrica na matriz nacional podem representar obstáculos para o desenvolvimento de outras matrizes mais sustentáveis. "Temos as obras hidrelétricas de grande porte, que resultam em impacto social e ambiental relevantes, e também temos o pré-sal, que pode acarretar no aumento de nossas emissões, o que pode contrabalancear decisivamente as reduções que temos feito no desmatamento". Para Baitelo, as energias sustentáveis podem gerar tantos empregos quanto o pré-sal, além de contribuir para a democratização da produção e do consumo energético no país.
 
O posicionamento do Brasil no plano internacional também representa um desafio para o país num cenário até 2020. Segundo Eduardo Assad, o modelo de negociação do governo brasileiro tende a ser lento e "amarrado", o que resulta numa demora na conclusão de acordos políticos dentro do governo. No entanto, Assad também aponta algumas mudanças recentes. "Vimos em Durban [na COP-17, no ano passado] o governo assumir uma postura diferente, em grande parte por causa da ministra Izabella Teixeira [Meio Ambiente], e pouco por causa do Ministério de Relações Exteriores". Para ele, um grande desafio para o Brasil é desenvolver e assumir um posicionamento político mais claro no plano das negociações internacionais.
 
As empresas no contexto climático até 2020
 
No campo das oportunidades, as empresas brasileiras podem ser decisivas para que o país assuma compromissos factíveis e desenvolva políticas que tenham resultados concretos num futuro próximo. Para Mario Monzoni, um primeiro passo é deixar o posicionamento defensivo que marcou a questão climática no país num passado recente. "Não precisamos entrar neste debate na defensiva, acusando a perda de competitividade. Ser um país com baixas emissões de gases de efeito estufa [GEE] é uma grande vantagem comparativa, e terá ainda mais importância nos próximos anos".
 
Os compromissos recentes assumidos pelo Brasil resultaram num Plano Nacional de Mudanças Climáticas e em planos setoriais que detalham como as metas voluntárias estabelecidas pelo governo brasileiro serão realizadas nos próximos anos dentro da economia nacional. Um destes planos, lançado recentemente, é o Plano Indústria, que estabelece diversas obrigações para as empresas em matéria de monitoramento, reporte e verificação de emissões de GEE e o cumprimento de metas graduais de redução.
 
Um dos problemas identificados no debate foi a dificuldade de se ter instrumentos de verificação. Segundo Monzoni, as empresas precisam pressionar o INMETRO e o governo pelo desenvolvimento de verificadores acreditados que possam comprovar nossos reportes de emissão.
 
Outro ponto que diversos representantes empresariais apontaram foi o papel das empresas no esforço geral de redução das emissões brasileiras de GEE. Segundo o inventário nacional, a maior parte das emissões é resultado do desmatamento. O peso da indústria no perfil das emissões brasileiras é baixo, principalmente quando comparado com outros países emergentes e mesmo com países desenvolvidos. No entanto, isto não significa que as empresas podem ignorar a necessidade de se adaptar a uma economia de baixo carbono. "Ainda que a maior parte das emissões não esteja na indústria, elas podem ser atores importantes na mobilização de outros atores em torno do problema climático", argumenta Assad.
 
Assim, o papel das empresas na questão climática não se resume apenas às suas reduções de GEE. Para Assad, "a indústria brasileira precisa ser mais agressiva e ousada na sua atuação, precisa investir mais em desenvolvimento e em inovação, pois é exatamente isto que o mercado procura: produtos limpos, e o Brasil pode oferecê-los". Baitelo concorda com este raciocínio. "Precisamos investir em tecnologia que tenham baixa pegada de carbono, não apenas para nosso mercado, mas também para o mercado externo". Além de investir em produtos e em processos inovadores e com baixa emissão, a indústria também pode ser um agente relevante no debate político, inclusive pela sua capacidade de ação em rede. “As empresas possuem uma capacidade informativa muito grande, e as redes ampliam este poder", aponta Monzoni. "As Iniciativas Empresariais em Clima são uma grande rede, que reúne outras quatro redes importantes de empresas; isto significa que nossa capacidade de informar e de incentivar a discussão e o debate é muito grande", completa o coordenador do GVces.
 
Fotos: Luiza Xavier & Ricardo Barretto (GVces)