Expansão de fonte renovável depende de aumento do financiamento privado

Brasil é destaque na América Latina pelo avanço em projetos, mas especialistas ressaltam que é preciso reduzir necessidade do auxílio dos bancos públicos, tributação e burocracia no segmento 01/12/2016 - DCI - Diário Comércio e Indústria
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São Paulo - A expansão da energia renovável no Brasil depende da mudança no modelo de financiamentos, avaliaram especialistas.  Para eles, a solução inclui ampliar linhas de crédito privado, diminuindo a dependência da iniciativa pública.

 

"Vemos no Brasil um movimento de instituições financeiras querendo aumentar a participação [no financiamento], mas elas não estão necessariamente conseguindo", afirma a pesquisadora do programa de finanças sustentáveis do Centro de Estudos em Sustentabilidade (GVces) da Fundação Getulio Vargas (FGV), Paula Peirão.  A pesquisadora integra a equipe responsável por um levantamento sobre energia renováveis na América Latina.

 

De acordo com o estudo, embora produtos financeiros existentes hoje possam ajudar a incentivar o avanço de fontes renováveis, grande parte do financiamento tem sido destinado a projetos de energia solar, como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que em outubro estabeleceu em sua nova política a ampliação do apoio aos empreendimentos desse tipo.

 

"No Brasil, o custo de investimento ainda é alto, há subsídios apenas para algumas fontes e concorrência com grandes hidrelétricas", acrescenta Paula Peirão.

 

Já a especialista em instituições financeiras do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Maria Netto, destaca que as empresas têm problemas de acesso a recursos de longo prazo no País.  Para ela, é preciso elaborar estratégias que agreguem o setor privado ao financiamento.

 

"Os bancos públicos no Brasil financiaram muito mais [empreendimentos] que outros países da região.  Mas no BID temos visto que é importante fazer o blend ideal do que o aspecto financeiro vai prover.  Porque em alguns casos o problema é o financiamento de longo prazo, em outros a taxa de juros", explicou.

 

Segundo ela, nem sempre o financiamento tem que cobrir todas essas barreiras e a maneira mais eficaz de aplicar esses recursos é por meio de uma estratégia que alavanque outros elementos dos projetos a partir desses aportes.

 

Atratividade

 

Maria contou que o BID está tentando viabilizar uma linha de financiamento para energia renovável junto ao BNDES, mas que não deve envolver projetos de energia solar.

 

"É preciso analisar também o retorno desses projetos.  Vemos a fonte eólica crescendo, mas em solar temos uma barreira de produção local [de equipamentos] e é preciso discutir se o mercado está aberto a importação e se ela será rentável", disse a executiva.

 

O presidente da fornecedora de equipamentos para eólicas Vulkan do Brasil, Klaus Hepp, reforça o ambiente mais atrativo para as eólicas no País.  "O leilão do início do ano foi ruim, mas há muito dinheiro no mercado global para ser aplicado em energia e está claro que é preciso ter mais recurso da iniciativa privada no setor, por isso o Brasil continua um mercado atrativo".

 

Na avaliação do diretor da Delta Energia, Geraldo Mota, para que o financiamento privado de fontes renováveis cresça no Brasil, o BNDES precisa mudar as taxas de juros oferecidas atualmente, muito abaixo do praticado pelo mercado.  "Essas taxas também não podem ser muito elevadas, mas no modelo atual não se pode ter uma taxa tão baixa e o BNDES financiando todos esses projetos sozinhos", avalia.

 

O surgimento de fundos de investimento e emissão de bônus para projetos de energia renovável também podem ganhar espaço como fonte de recursos, diz a pesquisadora da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), Heloísa Schneider.  "Em alguns países da América Latina, como o Chile, não há bancos de desenvolvimento local, então quem precisa de recursos busca a iniciativa privada ou organismos internacionais."

 

Heloísa lembrou ainda que a burocracia, incluindo a tributação, trava novos aportes no setor.  "A tributação é um impedimento a qualquer projeto no País e é por isso que no Chile as renováveis cresceram muito nos últimos anos, mesmo sem incentivo público."

 

30/11/2016 - 05h00