FGVces apresenta AdaptaClima e estudo de medidas de adaptação no Semiárido em conferência na África do Sul

25/06/2018
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Representado pelas pesquisadoras Mariana Nicolletti e Layla Lambiasi, o FGVces participou da conferência internacional Adaptation Futures, que ocorreu entre os dias 18 e 21 de junho, na Cidade do Cabo, África do Sul. Na sessão “Web-based platforms supporting climate action”, Mariana Nicolletti apresentou a plataforma AdaptaClima e seu processo de construção, coordenado pelo FGVces. Esse e mais dois casos serviram de inspiração e alimentaram o debate sobre aprendizados e desafios relacionados ao desenvolvimento e à operação de plataformas online voltadas a apoiar processos de adaptação à mudança do clima em diferentes escalas, junto a diversos públicos-alvo. Os outros dois casos apresentados foram as plataformas Climate Ireland (MaREI Center) e We Adapt (Stockholm Environment Institute). A sessão contou ainda com a abertura de facilitação de Roger Street, do UKCIP (UK Climate Impacts Programme, da Universidade de Oxford), e Kim van Nieuwaal, do Climate Adaptation Services. 

Entre os desafios comuns, destacam-se: 

  • Manter o engajamento e a participação ativa dos atores relevantes uma vez que as plataformas estejam em operação; 
  • Conectar setores e escalas de ação em relações de colaboração para produção e troca de conhecimento; 
  • Articular plataformas nacionais e internacionais para que conteúdos e soluções sejam compartilhados; 
  • Monitorar e avaliar os resultados e impactos das plataformas, indo além de indicadores como número de acessos. 

O indispensável processo participativo para o desenvolvimento e operação das plataformas foi destacado em todas as experiências. Além disso, os aprendizados apresentados passam por: 

  • Compreender as necessidades de cada grupo-alvo, identificar as linguagens usadas e priorizar qual será atendido em cada fase de desenvolvimento; 
  • Mapear o momento da agenda de adaptação (conformação, política pública elaborada, implementação) e desenhar o processo de acordo (cognição – entendimento, vontade de agir, ação);
  • Assumir o processo como um percurso de desenvolvimento de capacidades entre todos os envolvidos; 
  • Garantir a flexibilidade do processo e da plataforma em si, seguramente diversos ajustes de percurso e da ferramenta serão necessários. 

Enquanto a AdaptaClima teve sua primeira versão lançada em 2017, a Climate Ireland já passou por quatro fases de desenvolvimento desde 2011 e, ao longo desse percurso, enfocou planejamento em nível local e estratégias setoriais de adaptação. A WeAdapt tem sete anos de operação e respalda-se em artigos escritos por especialistas e praticantes e estudos de casos de adaptação em curso ao redor do globo; é uma plataforma internacional que mais recentemente dedica-se a conectar outras plataformas conferindo escala ao conhecimento e aproveitando as sinergias em relação à operação e à administração das ferramentas. 

Como o objetivo geral da sessão era dar início à contínua troca de experiências entre os profissionais envolvidos no desenvolvimento e operação das plataformas de apoio a adaptação, foram levantadas ideias para que entre esta edição e a próxima da Adaptation Futures consigamos avançar juntos em respostas aos desafios, por exemplo inaugurando comunidades de prática que tirem proveito das soluções tecnológicas aplicadas nas plataformas para troca de experiências.

Avaliação de medidas de adaptação

No último dia da conferência, o FGVces, representado pela pesquisadora Layla Lambiasi, participou da sessão “River basins and costal areas: case studies”, que reuniu diferentes experiências de avaliação e entendimento dos impactos socioeconômicos da mudança do clima. A sessão contou com a apresentação de cinco estudos de caso: a Análise de Custo-Benefício de Medidas de Adaptação na Bacia dos Rios Piancó-Piranhas-Açu, no semiárido Brasileiro, e outras quatro regiões ao redor do globo, como as zonas costeiras da Holanda, de Malta e de Bangladesh, além de uma bacia hidrográfica na Índia. 

A diversidade de abordagens, que convergiram na delimitação do espaço geográfico em zonas costeiras e bacias hidrográficas, revelou a pertinência do elemento local da adaptação à mudança do clima, bem como as possibilidades de aprendizado e troca de informações entre regiões. No caso da Holanda, o aumento do nível do mar, antes projetado em 0,85 metro em 100 anos, dá agora indícios de poder ser três vezes maior e ocorrer na metade do tempo estimado, ameaçando as estruturas instaladas na costa e o bem-estar de seus moradores. As recomendações envolvem antecipar as ameaças climáticas e agir mesmo na incerteza de seus eventos, realidade não muito distante do Brasil, onde os danos associados ao aumento de 0,45 metro no mesmo período, pode resultar em uma perda econômica de R$ 1,5 bilhão (leia mais nesta matéria sobre aumento do nível do mar em Santos).  

Em Malta e em Bangladesh, a análise da capacidade de se adaptar à mudança do clima em comunidades de pescadores e fazendeiros, respectivamente, revelou que a falta de um planejamento público local para o desenvolvimento de atividades sustentáveis em diferentes condições climáticas é um dos principais elementos de vulnerabilidade social. Em Bangladesh, um dos países mais vulneráveis à mudança do clima no mundo, a alteração dos padrões de chuva força os fazendeiros a plantar novas culturas ou trocar de profissão, migrando para as grandes cidades. Lá, a completa ausência de apoio financeiro do governo torna sua população ainda mais vulnerável. Em um paralelo com o Brasil, políticas afirmativas de convivência com a seca e permanência no semiárido possibilitaram que hoje, mesmo após seis anos de seca severa na região, seus habitantes ainda consigam se manter na terra.

Na índia, a implementação de uma barragem sem o planejamento necessário evidenciou os perigos da má adaptação, ou seja, de ações que não cumprem sua função e acabam por aumentar os impactos da mudança do clima: a medida aumentou a incidência de enchentes e a maior exposição de seus arredores a tal risco. Foi destacado o componente político-social da vulnerabilidade, resultante de decisões unilaterais e não aprofundadas em suas complexidades. Nesse ponto, a Análise Custo-Benefício se mostra mais relevante, sendo um primeiro passo no entendimento dos muitos fatores que antecedem uma ação em adaptação. Por meio de metodologia consistente, a ACB aborda diferentes aspectos da adaptação à mudança do clima, inclusive considerando particularidades locais e explorando medidas de adaptação pouco convencionais, registradas nos relatórios do projeto aqui

Medidas consideradas na Análise Custo-Benefício realizada pelo FGVces foram ainda discutidas no âmbito da Cidade do Cabo, sede da conferência, que tem enfrentado uma das maiores secas de sua história. Em função do nível crítico dos reservatórios e a antecipação catastrófica do Dia Zero, em que se esgotariam todas as suas reservas, campanhas para a redução do consumo e sua restrição em 50 litros por dia por habitante, conseguiram reduzir a demanda de água da cidade em expressivos 50%. Além disso, foram instalados de última hora poços de água subterrânea e quatro usinas de dessalinização da água do mar (saiba mais nesta matéria da Folha de S. Paulo)

A conferência terminou com uma plenária que destacou as principais contribuições da semana a serem incorporadas no 6° Assessment Report (AR6) do IPCC (sigla em inglês para Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima), principal publicação da área e que será lançada em 2022. Como mensagem, ficou a relevância do debate global, representado pela novidade desse ano: a inclusão do continente africano. Além disso, palavras como transformação e aprendizado foram termos-chave das discussões, evidenciando o momento atual da ação em adaptação, no qual os velhos comportamentos, se reforçados, só irão nos deixar mais vulneráveis à mudança do clima que se configura. A despedida foi um “até a próxima”, mais especificamente em 2020, em uma cidade ainda por ser anunciada.