Grupo de trabalho sobre Transição Agroecológica se encontra pela segunda vez para aprofundar em desafios para a transição e levantar possíveis ações para superá-los

22/07/2019
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O processo de transição agroecológica na agricultura familiar enfrenta diversos desafios, que envolvem desde a disponibilidade de assistência técnica qualificada no campo até a transformação dos hábitos alimentares da população.

Com o objetivo de aprofundar o entendimento acerca dessas e outras questões, o Bota na Mesa conduziu uma roda de conversa durante o 2º encontro do GT sobre Transição Agroecológica, na manhã do dia 29 de maio. Participaram da roda Roberto Furuya, agricultor da Cooperativa Agrícola Sul Brasil de São Miguel Arcanjo; Andrey Vetorelli, extensionista rural da Coordenadoria de Desenvolvimento Rural Sustentável em São José do Rio Preto; Juliane Lemos, da startup Maneje Bem; e Rodrigo Fayrdin, do mercado Solli Orgânicos.

Roberto abordou alguns entraves enfrentados pelos agricultores para responder à crescente demanda da sociedade pela adoção de práticas produtivas mais ecológicas. Segundo ele, apesar de o produtor ter essa consciência, não há oferta suficiente de assistência técnica para apoiá-lo no processo, e as tecnologias disponíveis no mercado são poucas e caras, em especial os insumos biológicos. 

Andrey complementou esse diagnóstico, explicando que um dos aspectos que levam à baixa disponibilidade de assistência técnica agroecológica é o fato de os cursos de formação em engenharia agronômica serem pautados por técnicas e conhecimentos da agricultura convencional. Neste sentido, ele reforçou a importância de cursos e capacitações para suprir essa lacuna.

Com este contexto em vista, em 2016 as Secretarias de Infraestrutura e Meio Ambiente e de Agricultura e Abastecimento do Governo do Estado de São Paulo, em parceria com o Instituto Kairós e Associação de Agricultura Orgânica, criaram o Protocolo de Transição Agroecológica. A ação se destaca por tornar política pública um esforço articulado para fortalecer o processo de transição, oferecendo assistência técnica qualificada, e promover o seu reconhecimento no mercado, por meio da entrega de certificados de transição agroecológica aos agricultores atendidos.

Outro trabalho importante para minimizar a carência de assistência técnica é realizado por Juliane e suas duas sócias por meio da Maneje Bem, startup que conecta, por meio de uma rede social, agricultores familiares e técnicos agrícolas para o compartilhamento de informações sobre práticas produtivas ecológicas. Juliane explicou que a solução se propõe a complementar a assistência presencial, oferecendo ao agricultor um canal remoto para obter respostas rápidas para suas dúvidas, para que seja possível corrigir a tempo eventuais desequilíbrios na produção. A startup, fundada em 2016, já́ atendeu mais de 10 mil agricultores.

No que diz respeito à conexão dos agricultores a mercados que reconheçam o valor dos alimentos produzidos com práticas ecológicas, Rodrigo compartilhou sua experiência como sócio fundador do mercado Solli Orgânicos. Os legumes e verduras que abastecem a loja vêm tanto de pequenos produtores quanto de cooperativas e produtores maiores, localizados no máximo a 400 km da loja. Para Rodrigo, é fundamental humanizar a relação com os fornecedores: “É preciso ter uma mudança de paradigma. Os mercados precisam entender a realidade do campo. Não podemos tratar uma cooperativa de pequenos agricultores da mesma forma que tratamos um grande produtor”. No Solli, questões relacionadas a preços pagos ao agricultor, prazos de pagamento e perdas, muitas vezes são tratadas caso a caso, buscando o equilíbrio entre as necessidades do produtor e do mercado.

Após a roda de conversa, a equipe do Bota na Mesa apresentou ao grupo um conjunto de grandes temas que deverão integrar as diretrizes, de maneira a contemplar a diversidade de aspectos que precisam ser trabalhados para promover a transição agroecológica na agricultura familiar. Os participantes, então, se reuniram em grupos e levantaram, para cada tema, possíveis ações que empresas e governos poderiam realizar.

Próximos passos

A partir das discussões do GT e com base em pesquisas e entrevistas realizadas paralelamente aos encontros, a equipe do projeto irá consolidar o conteúdo levantado e apresentará ao grupo, em outubro, uma versão preliminar das diretrizes para a inclusão da agricultura familiar relacionadas ao tema Transição Agroecológica. Além disso, a equipe está avaliando as 81 inscrições recebidas na Chamada de Casos, e selecionará aquelas que mais se destacam em termos de inovação, contribuição para a inclusão da agricultura familiar, potencial de replicabilidade e conexão com as agendas de mudança do clima e transição agroecológica. Em setembro, os casos selecionados serão apresentados à rede de parceiros do projeto.

Veja aqui o relato na íntegra do 2º encontro do Grupo de Trabalho sobre Transição Agroecológica

 

Organizações presentes neste encontro: 

Associação de Agricultores da Zona Leste, Associação de Agricultura Orgânica, Associação Isabelense de Produtores Rurais, Amater, Cooperapas, Coopmaio, Cooprojur, Cooperativa Sul Brasil de São Miguel Arcanjo, Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, CSA, EACH/USP, Grupo St. Marché, Instituto BioSistêmico, Instituto de Pesquisas Ecológicas, Instituto Ibiá, Instituto Kairós, Maneje Bem, Nespresso, Porticus, Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento de São Paulo, Rede de Agroecologia do Leste Paulista, Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, Solli Orgânicos.

 

Sobre o Bota na Mesa

Em 2019, o projeto Bota na Mesa dá continuidade ao processo de construção de diretrizes públicas e empresariais para a inclusão da agricultura familiar. Por meio de discussões junto a um grupo múltiplo e plural de atores, e amparado por pesquisas e publicações no assunto, serão construídas recomendações em dois novos temas: mudança do clima e transição agroecológica. Além disso, o Bota na Mesa inaugura a frente de trabalho de implementação das diretrizes junto a representantes de empresas e governos.