GVces e projeto Brazilian Furniture lançam ação de sustentabilidade no setor brasileiro de móveis

Parceria propõe identificar os desafios e as oportunidades para a inserção de atributos de sustentabilidade na indústria de móveis do país visando o comércio internacional 19/03/2013
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Bruno Toledo e Ricardo Barretto
 
Consumo responsável de matéria-prima, gestão de fornecedores na cadeia de valor, destinação adequada de resíduos são algumas das premissas da sustentabilidade que convidam o setor produtivo a inovar processos e repensar critérios de atuação. Os estímulos para isso são variados – demanda do mercado consumidor, diretrizes de políticas públicas, regras de financiadores, entre outros -, mas merece destaque a exigência crescente do mercado internacional, no caso de empresas envolvidas com exportação.
 
Um exemplo é a adequação do setor moveleiro do Brasil a critérios socioambientais que atendam consumidores de outros países. Esse é um movimento recente, que conta com a parceria entre o projeto Brazilian Furniture e o GVces, lançada no dia 28 de fevereiro na Fundação Getulio Vargas em São Paulo. O projeto Brazilian Furniture é coordenado pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), pelo Sindicato das Indústrias da Madeira e do Mobiliário do Distrito Federal (SINDIMAN) e pela Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário (Abimóvel) e tem como propósito promover as exportações brasileiras no setor e consolidar a imagem de qualidade e credibilidade do móvel fabricado no Brasil. A participação do GVces está centrada na Ação de Sustentabilidade do Brazilian Furniture e procura auxiliar as empresas brasileiras a inserir atributos de sustentabilidade em seus produtos, de forma a qualificá-las e capacitá-las a competir no mercado internacional.
Sustentabilidade: padrões e atributos para o comércio internacional
 
O evento de lançamento da parceria contou com especialistas que discutiram a exigência de padrões de sustentabilidade para acesso a mercados internacionais e a existência de atributos de sustentabilidade que facilitem esse acesso.
 
A professora Lígia Maura Costa (FGV-EAESP) apresentou um panorama sobre a exigência de padrões de sustentabilidade para acesso a mercados, do ponto de vista do direito internacional. “Mesmo com a recente valorização de produtos com aspectos sustentáveis no plano global, é difícil promover uma diferenciação entre produtos sustentáveis e não-sustentáveis via os acordos da Organização Mundial do Comércio (OMC)”, disse Lígia Maura em referência às cláusulas do Tratamento Nacional e da Nação Mais Favorecida. A primeira implica a não diferenciação de produtos internacionais na competição com produtos nacionais, enquanto a segunda estabelece a não discriminação entre produtos de determinados países, em determinado mercado. “Os acordos da OMC consideram algumas exceções para diferenciação de produtos no contexto da proteção e conservação da vida humana, animal e vegetal e na preservação de recursos naturais esgotáveis”, destacou a jurista ressalvando que uma série de requisitos de difícil cumprimento são impostos para configurar a exceção.
 
Isso significa que a exigência de padrões de sustentabilidade no mercado internacional atende menos a uma preocupação dos governos e mais a uma pressão marcante dos consumidores. Neste cenário, um caminho para que produtos sustentáveis venham a se destacar no comércio internacional, especialmente aos olhos dos consumidores, é obter eco labels que certifiquem que determinado produto incorpora aspectos de sustentabilidade.
 
“Para que um produto incorpore atributos de sustentabilidade que possam servir como diferencial positivo no mercado internacional, é fundamental que toda a cadeia de valor seja permeada por estes aspectos”, apontou o professor André Carvalho, da FGV-EAESP. No contexto da sustentabilidade, uma empresa possui responsabilidades que vão além das suas operações diretas, abarcando também o que seus fornecedores diretos e indiretos fazem. “Diversas empresas enfrentaram recentemente denúncias de violações aos direitos humanos e de degradação do meio ambiente, que por sua vez afetaram a sua imagem perante o público consumidor e, consequentemente, sua posição no mercado”, lembrou Carvalho.
Sustentabilidade no acesso a mercados internacionais: reflexões
 
O evento também reuniu representantes da indústria moveleira brasileira e profissionais de diferentes setores envolvidos nesse mercado, para refletir sobre alguns questionamentos importantes que a parceria entre GVces e o Projeto Brazilian Furniture pretende analisar. Primeiro, a definição dos atributos de sustentabilidade para esta indústria na sua matéria-prima (certificação da madeira, restrição ao uso de corantes e desenvolvimento de selos para outras matérias-primas), no design dos produtos (valorizar a 'brasilidade' do produto), no processo produtivo (regularização e bem estar da mão de obra e eficiência na utilização dos recursos naturais), na logística de transporte (diminuir as emissões de gases do efeito estufa) e na gestão empresarial (gestão, regularização e valorização da cadeia de fornecedores).
 
Segundo, a identificação dos desafios e oportunidades para a inserção de sustentabilidade na indústria moveleira, tendo em vista a maior exigência dos mercados nacionais e internacionais pela incorporação deste tema no comércio. Alguns desafios emergem nesta reflexão: a falta de tecnologia e de mão de obra qualificada, a gestão de resíduos da produção, a desarticulação do setor, e a ausência de mecanismos financeiros que facilite, por exemplo, a utilização de matérias-primas e substâncias mais sustentáveis. A partir destes desafios, é possível apontar as oportunidades que a indústria moveleira pode ter com a inclusão de sustentabilidade em seus produtos: a valorização do produto perante seus clientes, o atendimento de requisitos para compras públicas que valorizem aspectos de sustentabilidade, a valorização da marca 'Brasil' - algo que pode resultar em ganhos para todo o setor - além da melhoria no processo produtivo.
 
Finalmente, quais são os avanços necessários para que a indústria moveleira brasileira atinja os padrões internacionais e fortaleça a competitividade das empresas brasileiras no mercado internacional: qualificação e capacitação de fornecedores, investimentos em pesquisa e desenvolvimento, incentivos de boas práticas a partir de instrumentos governamentais (como desoneração fiscal), conscientização da alta gestão da empresa, entre outros.
 
Clique aqui para visualizar a colheita gráfica realizada durante o evento.
 
Próximos passos
 
A partir de março, a parceria entre o GVces e o projeto Brazilian Furniture realiza uma série de cinco encontros e visitas técnicas em polos moveleiros do Brasil para a elaboração de diagnóstico do setor e construção conjunta de diretrizes de sustentabilidade, trabalho que será conduzido pela equipe do GVces.
 
Fotos: Luiza Xavier (GVces)