O caminho inverso: Bota na Mesa leva grupos de trabalho para conhecer o dia a dia dos agricultores familiares

Como parte da jornada de encontros dos GTs, a equipe do projeto proporcionou aos participantes um dia de campo para vivenciar a realidade da agricultura familiar 25/06/2018
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Comprar as mudas. Adubar. Plantar. Carpir. Colher. De segunda a segunda, faça chuva ou faça sol.

Para construirmos diretrizes de fato aplicáveis para a inclusão da agricultura familiar na cadeia de alimentos, precisamos conhecer bem a realidade dos produtores. Essa foi a motivação para a equipe do Bota na Mesa conduzir um dia de campo com membros dos três grupos de trabalho do projeto.

Foi um dia inteiro em Ibiúna, a cerca de 70 km da capital paulista. O município é uma das principais regiões produtoras de hortaliças do estado de São Paulo e abriga mais de 2 mil agricultores. Lá estão a Cooperativa dos Agricultores Familiares de Ibiúna (COAFI) e a Cooperativa Agropecuária de Ibiúna (CAISP), que comercializam verduras e legumes diversos.

A agenda começou com visitas às propriedades da Maria Tenório e do João Carlos Sobrinho, agricultores familiares cooperados da COAFI. Após isso, o grupo conheceu as instalações da COAFI e da CAISP.

Com Maria e seu companheiro, Valdemir, os participantes colocaram a mão na massa, ou melhor, na terra, e experimentaram uma manhã de trabalho na produção, plantando mais de mil mudas de alface.


Maria, Valdemir e João Carlos relataram os desafios que enfrentam para vender seus produtos ao mercado. Chama a atenção o atraso nos pagamentos dos programas de compras públicas, que impacta não só o planejamento para entregas seguintes, mas também a continuidade da atividade agrícola: “Isso desanima nossos filhos de trabalhar na produção”, comentou Maria.

Outras dificuldades desses produtores estão relacionadas às adversidades climáticas, que impactam a produção e geram uma instabilidade ainda maior nos preços de alimentos frescos. “Entre a chuva e irrigar, prefiro irrigar. A chuva está cada vez mais ácida, estraga nossa produção” destacou Valdemir, mostrando ao grupo as folhas de alface perdidas devido às precipitações recentes. Pela experiência de João Carlos, “a utilização de estufas ajudaria a reduzir os impactos dos efeitos climáticos”, algo que ele tem planos para adotar caso consiga linhas de crédito adequadas.

Nas visitas à COAFI e à CAISP, os participantes conheceram o processo de classificação, higienização, corte e embalagem dos legumes e verduras que são comercializados pelas cooperativas. As duas organizações tiveram apoio do projeto Microbacias II, realizado pelo governo do estado de São Paulo em parceria com o Banco Mundial, para equipar suas centrais de processamento.


Ficou evidente a complexidade que acompanha a jornada dos alimentos, do plantio até o consumo. São diversas etapas que exigem, ao mesmo tempo, cuidado, sensibilidade e agilidade, especialmente tratando-se de alimentos altamente perecíveis, como é o caso das hortaliças. Para Virgínia Antonioli, do Instituto Akatu, essa complexidade precisa ser traduzida para o consumidor final.

A distância entre o produtor e o consumidor também foi percebida pelo grupo. “Vimos o quanto um não conhece o outro. Falta conectar essas duas pontas e humanizar o processo”, mencionou Roberto Matsuda, da Fruta Imperfeita, que também ficou surpreso em ver a quantidade de produtos, em boas condições para consumo, que são descartados por não estarem em conformidade com a aparência demandada pelo mercado.

No que se refere aos preços dos alimentos, o primeiro pensamento que vem à mente, depois de uma experiência em campo, é que R$ 0,50 por pé de alface não paga todo o trabalho. O produtor é tomador de preço, com poucas informações sobre o mercado e pouco poder para negociar. Roberto Furuya, da Cooperativa Agrícola Sul Brasil de São Miguel Arcanjo, apontou: “São muitos elos e muitos custos distribuídos na cadeia. O produtor ganha pouco. Precisamos buscar mecanismos que possibilitem novas formas de comercialização”.

Pheterson Aguiar, da Leão Alimentos, também chamou a atenção para o cuidado necessário quando o mercado cria processos e exigências para os agricultores, como rastreabilidade, para que esses requisitos não tornem ainda mais difícil a tarefa de escoar a produção. “Precisamos tomar cuidado para não excluir os pequenos produtores com esses mecanismos.”

No dia de campo foi possível despertar no grupo diversas reflexões relacionadas aos três temas de trabalho deste ciclo do Bota na Mesa: relações de consumo, juventude na agricultura, e infraestrutura e tecnologia. Esses e muitos outros aprendizados do dia serão inspirações para a construção das diretrizes para a inclusão da agricultura familiar na cadeia de alimentos. Fica a certeza de que momentos de aproximação de realidades como este são essenciais para promover mudanças reais na cadeia.

Os grupos de trabalho se encontram novamente no início de agosto, quando será realizado um encontro entre os participantes dos GTs e os casos selecionados pela chamada de iniciativas inovadoras de inclusão da agricultura familiar

Agradecemos imensamente aos produtores e às cooperativas que abriram suas portas e receberam o grupo com toda a atenção e cuidado.

Quem estava presente?

  • Cooperativa dos Agricultores Familiares de Ibiúna (COAFI)
  • Cooperativa Agropecuária de Ibiúna (CAISP)
  • Cooperativa Agrícola Sul Brasil de São Miguel Arcanjo
  • Coordenadoria de Assistência Técnica Integral, regionais de Limeira e Sorocaba (CATI – SAA/SP)
  • Leão Alimentos
  • Fundação Cargill
  • Instituto Souza Cruz
  • Fruta Imperfeita
  • World Transforming Technologies (WTT)
  • Orgânicos do ABC
  • Instituto Akatu