Oficina de avaliação encerra ciclo de formação do Bota na Mesa com organizações da agricultura familiar

Na última oficina em campo com as organizações participantes do Bota na Mesa, o momento foi de lançar luz aos aprendizados e coletar mensagens que emergem do campo para os atores da cadeia 06/09/2017
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FRUTOS QUE COLHEMOS

Desde o início do projeto Bota na Mesa, em outubro de 2015, o GVces concentrou esforços em aproximar 9 organizações agricultores familiares, situados na região urbana e periurbana de São Paulo, a mercados que desejassem acessar. Partimos de um fio condutor comum, pensando sonhos do grupo e estruturando um diagnóstico de cada organização participante. Após mais de 10 mil quilômetros rodados, dentro de São Paulo e outras 6 cidades do entorno, em mais de 50 oficinas em campo, o que salta aos olhos é notar as peculiaridades dos processos e resultados em cada uma das organizações. Dentre os fatores que influenciaram as diferentes trajetórias, vale mencionar (1) o engajamento do grupo, (2) a presença de jovens, (3) o apoio do poder público local, (4) a localização privilegiada em relação a São Paulo, e também as condições climáticas que afetaram a produtividade neste período.

De um trajeto onde o processo foi tão importante quanto os resultados, chegamos à jusante dos planos de ação, no momento chamado de “avaliação”. Mais do que mensurar indicadores e metas acordadas, o intuito da etapa foi entender, por meio das conversas e depoimentos, qual foi o valor do trabalho realizado pelo GVces para o objetivo estabelecido: acessar um novo canal de comercialização.

Entendemos com os participantes que o ferramental aportado  foi absorvido em graus diferentes. Essa percepção decorre tanto de fatores sociais, como o grau de instrução e escolaridade, quanto da maturidade da cooperativa em relação aos aspectos de gestão interna.  

Nas oficinas de avaliação percebemos, com especial destaque, que os contatos proporcionados em encontros de negociação, as relações de confiança estabelecidas entre a equipe do GVces e os participantes, e a criação de espaços internos de diálogo para a tomada de decisão foram frutos valiosos para as organizações. Caminhos foram encurtados, dentro e fora das cooperativas e associações.

Em todos esses momentos, a percepção é de que há uma estrada a ser percorrida. Está claro que processos de formação são sementes plantadas para uma colheita de médio e longo prazo.

UM NOVO OLHAR PARA A CADEIA

Se meu olhar muda, o mundo muda. (Basarab Nicolescu)

Como dar visibilidade ao que acontece “nos bastidores” da cadeia? Quantas distâncias podem ser encurtadas? Quantas não podem? Como conectar recursos que já existem? Que inovações precisam ganhar escala? Quais são os papéis de cada elo da cadeia e como implementar um regime de corresponsabilidade entre os envolvidos?

O Bota na Mesa segue com o objetivo tornar a cadeia de alimentos mais justa, inclusiva e transparente. O pano de fundo ainda é para que a escolha do trabalho no campo, em pequena escala, seja efetivamente uma possibilidade para as famílias. E para que essa cadeia funcione a partir da lógica da segurança alimentar e nutricional, considerando os limites ecológicos iminentes.

Há, de fato, muitas coisas acontecendo que são “invisíveis”. Uma mudança mais significativa é possível quando o trabalho de articulação ganha corpo, desenvoltura, e traz para a mesa todos os “pepinos e abacaxis” que devem ser discutidos com os envolvidos.  

Para dar fôlego a uma agenda de debates que segue na pauta do Bota na Mesa, a oficina de avaliação também colheu com os participantes quais os recados e as mensagens precisam ser amplamente difundidos para outros atores importantes da cadeia, como varejistas, a indústria, gestores públicos, entre outros.  

“Precisamos mostrar algo diferente para o mercado que não seja só o preço” – diz Roberto, da Cooperativa Agrícola Sul Brasil. Deste vasto caldo de inteligências que emergem da prática, levaremos na bagagem a necessidade de melhores programas de extensão rural; os mecanismos de definição de preços e repartição dos ganhos; a problemática de embalagens, cujo custo muitas vezes recai sobre o produtor e não tem contrapartida em preço mais alto; o desafio da rastreabilidade, da sucessão familiar, do acesso a crédito; o desperdício e as perdas de alimentos; os arranjos de governança das políticas públicas e os entraves logísticos.

“Porque eles não vêm aqui conhecer a gente e ver como é na prática?” Essa e outras mensagens despertam para a importância da valorização da agricultura familiar a partir de outra lógica, sensível e experiencial. Só assim, com um novo olhar, que dê conta da complexidade do campo, é que será possível estabelecer as bases para equilibrar e potencializar a participação da agricultura familiar na cadeia de alimentos.