Programa GHG Protocol celebra 10 anos com reflexão sobre papel dos inventários de emissões na gestão empresarial e pública

23/08/2018
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Para celebrar a primeira década do Programa Brasileiro GHG Protocol, o FGVces propôs no evento anual do Programa uma reflexão sobre os inventários de emissões de gases de efeito estufa e suas conexões com práticas empresariais e com políticas públicas, além da atuação em rede entre empresas, sociedade civil e academia para impulsionar a discussão sobre mudança do clima e redução de emissões no Brasil. 


Mario Monzoni, coordenador do FGVces, recuperou a história do GHG Protocol no Brasil, destacando a inovação que uma iniciativa de registro voluntário de emissões por empresas representa. “Naquela época havia empresas grandes falando em neutralização de carbono – mas ninguém tinha feito inventário ainda. Percebemos que havia uma necessidade de investimento no básico”, lembra. “Hoje há muita coisa acontecendo em todo o mundo sobre gestão de emissões e o setor empresarial percebeu que é fundamental para se manter no mercado”, disse Monzoni, avaliando que as relações econômicas e mercado externo podem ter mais influência nessa agenda do que uma possível regulação nacional.

O Programa Brasileiro GHG Protocol é uma iniciativa voluntária que incentiva a realização e publicação de inventários de emissões de gases de efeito estufa (GEE) de organizações no Brasil. Com o objetivo de estimular essa cultura, torna acessíveis gratuitamente métodos e ferramentas que auxiliam organizações na tomada de decisão para a mitigação de seu impacto sobre o clima.

O programa foi adaptado para o contexto nacional pelo FGVces e pelo World Resources Institute (WRI) – em parceira com o Ministério do Meio Ambiente, o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), a Embaixada Britânica no Brasil, o World Business Council for Sustainable Development (WBSCD) e 27 empresas fundadoras. O Registro Público de Emissões, com mais de 2.100 inventários, representa hoje a maior base de inventários organizacionais de acesso público e gratuito disponível da América Latina. 

Hoje são 140 organizações, de 18 setores diferentes da economia. Suas emissões representam cerca de 15% das emissões brasileiras (descontadas as de Mudança do Uso da Terra e Florestas). O volume total de emissões dessas empresas supera as emissões de 144 países entre os signatários do Acordo do Clima de Paris. “Isso significa que qualquer mudança de trajetória desse grupo para reduzir emissões é muito relevante para uma economia de baixo carbono”, avalia George Magalhães, gestor do Programa. Assista à apresentação dos dados

Veja aqui o documento com resumo das informações relatadas neste ciclo do Programa 

Políticas nacionais e gestão empresarial

Guarany Osório, coordenador do programa Política e Economia Ambiental do FGVces, apresentou o histórico da última década de discussões de políticas públicas nacionais sobre redução de emissões, desde a criação da Política Nacional sobre Mudança do Clima, em 2009, até o momento atual (assista aqui). Ele avalia que houve muita expectativa sobre instrumentos de regulação para o período ainda antes de 2020, mas que a discussão sobre políticas na agenda de clima ficou no nível técnico. “Ainda não tivemos uma liderança que incorporasse esse tema a uma agenda política, trazendo mais efetividade para a regulação de carbono no Brasil”, avaliou. 

Ele também traçou a trajetória de programas voluntários de discussão sobre mudança do clima, relevantes para que as empresas saibam se posicionar e influenciar a consolidação de instrumentos de regulação de emissões no Brasil, de forma mais ambiciosa e melhor para o Brasil em termos de custo-efetividade e de redução de emissões. “Não vamos fazer de 2030 um novo 2020”, concluiu.

Uma dessas iniciativas voluntárias é a Simulação de Sistema de Comércio de Emissões (SCE), que acaba de lançar novo relatório (veja aqui). “Estamos falando de um instrumento econômico que tem como objetivo internalizar as externalidades, isso significa mudar o sistema de preços da economia”, disse Mariana Nicolletti, que coordena o projeto (assista). Na SCE, realizada pelo FGVces em parceira com o BV Rio, as empresas simulam um sistema cap and trade com o objetivo de reunir aprendizados antes de uma regulação mandatória e para se posicionarem sobre o tema. “Estamos falando de quem vai pagar pela redução de emissões que precisamos fazer para que outros não paguem os custos do aumento da temperatura global.” Pioneira na América Latina, a iniciativa existe desde 2013 e hoje reúne 35 empresas de diferentes setores. Saiba mais sobre a iniciativa

Empresas pioneiras

Por estarem no Programa desde 2008 e serem pioneiras no relato voluntário de emissões, 18 empresas foram homenageadas pelo FGVces: Alcoa, Anglo American, Banco do Brasil, Bradesco, Braskem (que incorporou o membro fundador Quattor), BRF, Companhia Energética do Estado de São Paulo (CESP), Companhia Paranaense de Energia (COPEL), EDP, Furnas, Ford, Grupo Boticário, Itaú, Natura, Polícia Federal, Santander, Suzano e Whirlpool.


Denise Hills, superintendente de Sustentabilidade do Itaú, falou sobre a evolução do tema na discussão sobre preço e risco ao custo de capital. A empresa adota a precificação interna de carbono para compreender o impacto da variável e usar como fator de decisão de carbono faz com que se entenda impacto dessa variável. “Preço de carbono não é mais uma discussão de ‘se’. Tem uma discussão de ‘quando’, de qual o tamanho desse preço, mas quase toda a indústria financeira usa esse instrumento”, conta. Ela também apontou a relevância de trabalhar em rede para aportar mais conhecimento e desenvolver ações efetivas para redução de emissões, incorporando o tema à tomada de decisões na gestão. Veja aqui a apresentação de Denise Hills no evento

O gerente de Desenvolvimento Sustentável da Braskem, Mario Pino, relatou que o inventário e sua evolução ao longo da década foi essencial para a formulação de medidas de redução de emissões, estimulando também o desenvolvimento de novos produtos e ferramentas de gestão mais eficientes. Veja aqui

Os inventários de emissões de GEE dos membros do Ciclo 2018 do Programa Brasileiro GHG Protocol estão disponíveis no Registro Público de Emissões.