Relatório se afirma como ferramenta de gestão para sustentabilidade empresarial

02/07/2008
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Essa foi uma das conclusões da Reunião Aberta do Grupo de Trabalho sobre a terceira geração de diretrizes para relatórios de sustentabilidade da Global Reporting Initiative (GRI), realizada em 30 de junho, na Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo. O encontro fez um apanhado das lições aprendidas e das experiências que marcaram esse segundo Grupo de Trabalho (GT) iniciado no fim de 2007 pela parceria Ethos, GVces e BSD Consulting Brasil. O consórcio Uniethos, GVces e BSD foi o primeiro parceiro da Global Reporting Initiative no mundo a ser certificado para ministrar a oficina de GRI. (Leia aqui notícia a respeito)

Conforme explicou Roberta Simonetti, coordenadora do programa Sustentabilidade Empresarial do GVces, os GTs são o espaço para difusão, indicação de caminhos e troca de experiências sobre as diretrizes GRI. Na abertura do evento, Mario Monzoni, coordenador do GVces, destacou que o trabalho do Centro para a promoção e disseminação das diretrizes GRI encara o processo do relatório como um potencial catalisador de mudanças internas em direção à sustentabilidade.

Conscientizar as empresas sobre essa possibilidade tem sido uma conquista progressiva, como ressaltou Beat Grüninger, sócio-fundador da BDS Consulting. “No início, muitos nem sabiam do que se tratava a GRI. Agora temos exemplos de empresas que estão mudando toda a gestão por conta de um ‘simples’ relatório.” A terceira geração de diretrizes GRI traz um grande avanço nesse sentido, uma vez que estimula as instituições a integrarem o relatório ao processo de gestão, o que o torna uma ferramenta de transformação. Para tanto, são estipulados princípios que definem o conteúdo dos relatórios e asseguram sua qualidade. Todos eles são explicados na publicação "Uma contribuição para a prática da publicação de Relatórios de Sustentabilidade no Brasil", lançada na Reunião Aberta do GT, que será distribuída gratuitamente pelos parceiros.

A implementação da GRI no Brasil aponta para uma nova cultura empresarial, conforme atestou Gláucia Terreo, coordenadora das atividades da GRI no país e coordenadora de programas do Instituto Ethos. “Antigamente as empresas se limitavam ao relatório financeiro. Hoje, o financeiro é uma parte do relatório de sustentabilidade, que traz como complementação os aspectos socioambientais. Caso contrário, a gestão da empresa fica restrita ao ponto de vista financeiro, prejudicando aspectos como a relação interna com as equipes e a relação com a comunidade.”

Outro desdobramento é o fator de multiplicação que o processo tem propiciado. “Algumas empresas já estão procurando stakeholders [partes interessadas] como sindicatos e comunidades para discutir a sustentabilidade”, afirmou João Gilberto A. F. dos Santos, do Instituto Ethos. Existem também associações como a Abrade (Associação Brasileira de Distribuição de Energia Elétrica) e a Aberje (Associação Brasileira de Comunicação Empresarial) que estão fazendo aplicação em escala da GRI em seus setores. Para Gláucia, a escala ajuda na construção do cenário brasileiro de sustentabilidade empresarial.

Funcionamento

Auditório da FGV lotado durante a reunião aberta da GRI
 

“Mais do que oferecer para o mercado um curso certificado queríamos promover um espaço para discutir ações e dilemas no processo de relato e da consolidação das diretrizes GRI.” Assim Mario Monzoni resumiu um dos elementos fundamentais do processo da GRI: a troca de experiências.

Em cada encontro, os temas mais relevantes para os participantes são colocados em pauta, com uma apresentação de um especialista, sendo depois promovida a discussão em grupo.

Sônia Loureiro, treinadora oficial da GRI, apontou três dimensões para entender as diretrizes do relatório de sustentabilidade como ferramenta de gestão. A primeira é encarar o relatório como um instrumento de comunicação para compartilhar com os públicos da empresa seu desempenho e assumir compromissos e metas de melhoria. Sônia considera o relato como a parte visível de uma gestão e esta como um processo contínuo.

O nível estratégico é a segunda dimensão. “É preciso avaliar a consistência entre as políticas da organização e seu desempenho na prática. Monitorar a evolução das práticas e comparar com outras empresas”, destacou Sônia. O terceiro nível é o operacional, que corresponde à aplicação dos conceitos de sustentabilidade ao negócio.

O passo-a-passo dos relatórios GRI está detalhado na publicação "Caminhos: Ciclo Preparatório para Elaboração de Relatórios de Sustentabilidade da GRI", que pode ser obtida diretamente com a Global Reporting Initiative.

Relatos

Essas orientações não significam entretanto que as empresas desenvolvem seus relatórios da mesma maneira. CPFL, Anglo American, Holcim e Philips do Brasil foram convidadas a falar de suas experiências em GRI durante o evento e evidenciaram, por exemplo, que designam áreas diferentes das empresas para coordenar o levantamento de informação e a produção do relatório.

Representantes das empresas relatam suas experiências na produção dos relatórios GRIAinda assim, alguns elementos comuns foram apontados, como a busca pelo engajamento das equipes internas na produção dos relatórios e conscientização de sua importância. Além disso, as empresas compartilham um processo de amadurecimento da cultura do relatório de sustentabilidade e revelam que não se restringem mais à divulgação de ações bem sucedidas, mas também abordam pontos que precisam de melhorias, tendo em mente que se trata de um processo contínuo. E destacam ainda a importância de se ouvir e valorizar as demandas das partes interessadas .

O GT, encerrado no dia 30 de junho, foi o segundo já realizado no Brasil, que hoje é um dos países com maior número de relatórios da GRI, com 78 documentos produzidos no período 2007-2008. Participaram desse grupo de trabalho 16 empresas: Anglo American, Aracruz, Bradesco, Comgás, CPFL, Holcim, Itaú, NovAmérica, Petrobrás, Philips, Sadia, Samarco, Santander, Telefônica, Unilever e Unimed.


Ricardo Barretto