Segundo encontro do GT Relações de Consumo – 19 de abril de 2018

Dando continuidade à agenda de construção das diretrizes públicas e empresariais para a inclusão da agricultura familiar na cadeia de alimentos, iniciada em março, o Grupo de Trabalho de Relações de Consumo do Bota na Mesa reuniu-se pela segunda vez no dia 19 de abril, na FGV. O encontro teve dois objetivos principais: (i) dialogar sobre o preço das frutas, legumes e verduras e (ii) levantar ideias de ações a serem realizadas por empresas e/ou governos para garantir a inclusão da agricultura familiar na cadeia de alimentos. 06/06/2018
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O que os preços dos alimentos nos dizem sobre as relações de consumo na cadeia? Como eles poderiam refletir e/ou promover práticas mais justas, inclusivas e capazes de promover a segurança alimentar e nutricional e a conservação ambiental?

Buscando responder a essas perguntas, uma roda de conversa com especialistas deu início ao encontro. Foram convidados a participar:

  • Terezinha Santos, agricultora da Zona Leste de São Paulo
  • Luiz Henrique Bambini, da Coordenadoria de Alimentação Escolar da Prefeitura de São Paulo (CODAE)
  • Eduardo Trevisan, da ONG Imaflora 
  • Afonso Peche, do Instituto Agronômico de Campinas (IAC)


Para estimular o início do diálogo, a equipe do Bota na Mesa apresentou uma sondagem de preços de um pé de alface americana, realizada na semana anterior ao encontro, em diversos canais de vendas na cidade de São Paulo. A variação surpreendeu a todos: o item podia custar de R$1,69 a R$6,00, dependendo do local onde fosse comercializado.

A amplitude de preços foi o gatilho para a fala inicial, da Terezinha, que trouxe como ela estabelece os preços dos produtos que vende e se acredita que os clientes enxergam tudo que está por trás da produção e que deveria estar refletido no preço cobrado.

Segundo ela, que produz hortaliças orgânicas e promove venda direta em feiras ou na própria horta, o preço para todos os seus produtos é R$3,00 – facilita a comunicação e a contabilidade. A situação da Terezinha é peculiar, porque ela está muito próxima do mercado consumidor e consegue vender de maneira direta. A maior parte dos produtores de hortaliças, no entanto, enfrenta uma realidade bem diferente: depende de atravessadores que comprem seus produtos e ficam com uma margem muito pequena do valor final.

Esse contexto é um grande motivador para a criação do PNAE – Programa Nacional de Alimentação Escolar, que direciona 30% do orçamento da merenda da rede pública para compra direta da agricultura familiar. Luiz Henrique, da CODAE, compartilhou com o grupo os desafios que encontra em seu dia-a-dia no abastecimento das mais de 2 milhões de merendas na cidade de São Paulo. A procura por produtores, a negociação de um preço justo e a aprovação pelo tribunal de contas, que tem por prática o critério do menor preço, são algumas das questões a serem enfrentadas. Esse Programa, no entanto, tem tido um papel muito relevante na inclusão de pequenos agricultores no mercado por meio das compras públicas. 

Em algumas outras cadeias, como a da castanha do Brasil e do cacau, já existem iniciativas de se buscar um preço mais justo. Eduardo Trevisan, do Imaflora, contou como a ONG tem atuado nesse sentido com algumas organizações. Segundo ele, as ações que ajudam os produtores ou extrativistas a chegar num preço mais adequado incluem rastreabilidade, selo de origem, embalagens diferenciadas e, o que é muito importante, encontrar um mercado que esteja disposto a pagar por isso. Segundo Eduardo, alguns casos de sucesso já existem na Amazônia e no Cerrado e podem ser replicados em outras regiões. 

Encerrando a roda de conversa, o pesquisador Afonso Peche, do IAC, trouxe uma perspectiva de futuro para a agricultura, entendendo que não somente os produtos devem ser remunerados, mas também os diversos serviços prestados pelo agricultor, como a conservação do solo e da biodiversidade, a manutenção da paisagem rural, a produção de água, entre outros. Esses fatores são também essenciais para que os consumidores do meio urbano enxerguem a agricultura de uma maneira mais apreciativa. Dessa forma, o agricultor poderia ter uma renda adequada para continuar com sua atividade e ficaria menos sujeito a variações e preço e perdas. 

Ficou evidente, após as falas, que a questão do preço é central na cadeia e tanto reflete as formas como se dão as relações de consumo, quanto pode ser impactada por elas, dependendo das negociações, do canal de venda etc. A conversa mostrou, no entanto, que há caminhos muito interessantes que precisam ser abertos em busca de uma cadeia mais inclusiva.

Inspirados pela roda de conversa, os participantes se separaram em seguida em grupos para pensar em ações a serem implementadas por empresas e/ou por governos para garantir que as relações de consumo fossem orientadas para a inclusão da agricultura familiar. As ideias propostas pelo grupo já farão parte dos primeiros rascunhos das diretrizes que estão sendo construídas nos grupos de trabalho.

Como próximos passos, o grupo terá um próximo encontro em agosto de 2018 para conhecer os casos selecionados pela chamada de iniciativas inovadoras na cadeia de alimentos, realizada no primeiro semestre pelo Bota na Mesa. A expectativa é que o contato com experiências exitosas e já em andamento inspire ainda mais a construção das diretrizes.


Estiveram presentes as seguintes organizações:
  • Coop – Supermercado Cooperativo
  • Sumá
  • Fundação Cargill
  • Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento da cidade de São Paulo (SMUL)
  • WWF
  • Comunidades que Sustentam Agricultura (CSA)
  • Prefeitura de Mogi das Cruzes
  • Imaflora
  • Cooperativa dos Agricultores Familiares de Ibiúna (COAFI)
  • Instituto Agronômico de Campinas (IAC)
  • Orgânicos do ABC
  • Festival Orgânico da Terra ao Prato
  • Coordenadoria de Alimentação Escolar da Prefeitura de São Paulo (CODAE)
  • Secretaria Especial de Agricultura Familiar e do Desenvolvimento Agrário (SEAD)
  • Grupo St Marche
  • Fruta Imperfeita
  • Associação de Agricultores da Zona Leste (AAZL)
  • Walmart
  • Unicamp