Setor agropecuário vive paradoxo entre crescimento econômico e mudanças climáticas

Para especialistas, porém, país tem mais oportunidades que desafios quanto à busca pela redução de GEEs 29/10/2010
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No mês de outubro, profissionais do ramo agrícola se reuniram em São Paulo para debater um paradoxo vivido pelo país. De um lado o Brasil pretende reduzir suas emissões de gases do efeito estufa (GEEs) na ordem de 36% a 39% até 2020, como foi acordado no ano passado durante a 15ª Conferência das Partes (Cop 15), em Copenhagen. De outro, há o desejo de se tornar potencia quanto à produção agropecuária, meta que para ser alcançada resultaria numa expansão em cerca de 30% das áreas rurais brasileiras.

Durante o evento, organizado pelo Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas – GVCes em parceria com o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia – IPAM, no entanto, um fato estava claro para todos os participantes, que com o atual modelo de produção agropecuária, importante fonte emissora de GEEs, será muito difícil cumprir as metas climáticas.

“A agricultura tem um importante papel na estabilização do clima”, afirmou Daniel Nepstad, ecólogo e coordenador Programa Cenários para a Amazônia do IPAM, que vê neste cenário a importância da contribuição de produtores, empresas e comunidades ligadas à agropecuária.

De acordo com dados do IPAM, de 2006 para 2009, a taxa de desmatamento na Amazônia brasileira caiu 64%, fruto de fatores econômicos, ampliação da rede de áreas protegidas e ações do governo. “Temos que dar valor para a floresta em pé, porque hoje ela só tem valor no chão”, defende Nepstad.

Financiamento e metas para mitigação

Hoje, já existem linhas de financiamento para empresas e produtores que buscam reduzir suas emissões de GEEs. Os chamados financiamentos públicos provêm de governos ou instituições financeiras, tal como o Fundo Amazônia, administrado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES) ou o Programa de Agricultura de Baixo Carbono (Programa ABC), construído, principalmente, pelo Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Já os financiamentos privados fomentam as reduções nos mercados mandatórios, para empresas ou setores emissores que se encontram regulado por leis.

O setor agropecuário brasileiro pode participar tanto do European Emissions Trading Scheme (ETS), por meio de projetos do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) do Protocolo de Kyoto, quanto de mercados voluntários, que atendem instituições que querem neutralizar suas emissões através de investimentos em projetos.

Outra frente de estímulo à mitigação na agropecuária está associada à Conferência de Copenhagen, onde foram anunciadas no ano passado as metas setoriais que visam a mitigação das mudanças climáticas. Como acordado, o Brasil se propôs a reduzir em 80% o desmatamento na floresta amazônica e 40% no Cerrado.

“Temos que por fim ao desmatamento ilegal, é uma questão prioritária”, disse Marcos Jank, engenheiro agrônomo e presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA). Jank ressaltou a importância de o país ter potencial suficiente para se tornar exemplo no cenário mundial de uma economia de baixo carbono. “O que precisamos são de políticas públicas sólidas, simples, inteligentes e previsíveis”, disse. “Oportunidades para a agropecuária brasileira são maiores que os desafios identificados”, concluiu o especialista.